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Um Cântico para Leibowitz: quando um livro obriga o leitor a buscar mais

Um Cântico para Leibowitz: quando um livro obriga o leitor a buscar mais

Eu tenho uma relação muito interessante com Um Cântico para Leibowitz.

Tudo começou quando eu terminei de ler esse livro e tive a certeza de que eu tinha odiado tudo. Porém, depois que eu revisei todas as minhas anotações e pensei um pouco para além da história, percebi que ele é incrível.

O que a experiência de ler o clássico de Walter M. Miller Jr. me trouxe é que existem alguns livros que forçam o leitor a ir além das páginas, livros que não são apenas entretenimento.

Sobre o que é Um Cântico para Leibowitz

É muito difícil explicar sobre o que é esse livro, mas basicamente a história é um compilado de três contos que se passam no mesmo local, uma abadia, com 600 anos de diferença um do outro.

Nós conhecemos o dia a dia dos monges que vivem nessa abadia, que é a ordem de Leibowitz, um homem que foi um cientista e criou uma ordem regida pela ciência.

capa do livro

A primeira parte da história se passa 600 anos depois de uma guerra nuclear que aconteceu na metade do século XX, e o mundo caiu na barbárie.

Porém, os monges da ordem de Leibowitz usam seus dias para guardar os conhecimentos científicos do pré-guerra nuclear, assim como trabalham para canonizar o monge que fundou a ordem.

Na segunda parte da história, a trama gira em torno do conhecimento guardado pelos monges, a memorabilia, como eles chamam, ser compartilhado com as universidades.

Nessa altura, o mundo já está mais civilizado, porém o medo é de que a guerra nuclear se repita.

E na terceira parte, a guerra se concretiza. Os monges estão vendo o mundo ao redor entrar em colapso, pessoas morrerem e a história se repetir.

No fim, a humanidade deixa a Terra em uma nave espacial para buscar construir um novo mundo em outro planeta enquanto uma bomba atômica explode para destruir a abadia.

Os temas do livro

Para mim, o maior tema tratado pelo livro é a história cíclica. O que já aconteceu vai voltar a acontecer porque o ser humano não aprendeu a valorizar a memória ainda e aprender com o passado.

Tanto que a guerra nuclear que aconteceu no século XX na história (uma alusão ao medo que as pessoas no século XX tinham de a guerra fria se concretizar) se repete no século XXX.

Dentro de Um Cântico para Leibowitz, a humanidade não aprende com o passado, então entregar conhecimentos tecnológicos para eles é um erro. Esse é outro dos temas do livro.

Os monges da abadia são extremamente relutantes de entregar o conhecimento que eles guardam há tanto tempo em sua biblioteca porque eles sabem que a humanidade poderá usar esse conhecimento para o mal.

E isso não porque somos maus por natureza, mas porque não aprendemos com o passado.

Buscando significado fora das páginas de Um Cântico para Leibowitz

Quando eu terminei a leitura de Um Cântico para Leibowitz, a primeira coisa que eu pensei foi que este era um livro sem nexo.

Como ele é, basicamente, formado por três contos, a história é fragmentada e não temos um protagonista para nos apegar e nos identificar.

Porém, talvez a ideia de uma história fragmentada fosse justamente a ideia do autor.

A história começa com um monge que encontra um abrigo antibombas e começa a fazer um trabalho de investigação arqueológica e, de certa forma, é o que esse livro nos obriga a fazer.

Quando terminamos de ler Um Cântico para Leibowitz, o impulso é tentar preencher as lacunas. E esse impulso nos leva a escavar a vida do autor e a tentar entender seu contexto.

Um pouco sobre Walter M. Miller Jr.

Um Cântico para Leibowitz nasceu de um momento sombrio na vida de Walter M. Miller Jr.

O autor foi um soldado durante a segunda guerra mundial e, segundo seu próprio relato, foi um dos responsáveis pelo bombardeio de um monastério durante a guerra.

Seu batalhão acabou com a vida de diversos monges, então esse fato teve um impacto muito forte em sua vida. Tanto que Walter M. Miller Jr. se suicidou anos depois.

Ele sempre carregou a culpa pela morte dos monges e foi traumatizado pela guerra. Além disso, o autor viveu durante os anos da guerra fria, temendo que uma nova guerra, uma ainda mais brutal, se achegasse.

o autor walter m. miller jr.

Walter M. Miller Jr. sabia do que a humanidade era capaz e sabia que mesmo recém saindo de uma guerra que matou tanta gente, o ser humano estaria pronto para mais uma porque isso sempre aconteceu.

Ele entendia que a história é cíclica porque não aprendemos com o passado. Por isso sabia que um dia, o ser humano se envolveria em uma nova guerra.

Foi esse pensamento desesperançoso que motivou grande parte da trama de Um Cântico para Leibowitz.

Outras considerações sobre Um Cântico para Leibowitz

Existem diversas outras abordagens que eu poderia trazer para discutir esse livro, mas eu vou apenas trazê-las em tópicos por agora:

  • A ressignificação bíblica dada aos fatos “antigos” é muito interessante. Existe um momento em que um dos monges conta a história da guerra nuclear como se fosse uma profecia ou uma passagem da bíblia, mostrando que a Igreja incorporou os acontecimentos passados como mito.
  • Existe no livro o conceito da “simplificação”, quando a história é retirada das massas e simplificada para que o ser humano consiga conviver com o fato de ter vivido uma guerra. Basicamente, as pessoas buscaram viver uma vida mais simples e primitiva depois da guerra nuclear para tentar se afastar da tristeza do acontecido. Eu pensei muito em como a guerra fria trouxe o idealismo dos hippies e a quarentena de COVID-19, o Cottagecore. Como se a humanidade buscasse o idílico para fugir do horror da vida real.
  • É muito interessante como as relíquias desse mundo são documentos matemáticos e esquemas de grandes máquinas, como se isso fosse a arte desses novos tempos. Além disso, muito desses registros antigos da ciência são vistos com dúvida por muitos estudiosos dessa nova época, como se as descobertas dos antigos não pudessem ser levadas em conta. Assim como nós fazemos com a construção das pirâmides, por exemplo.

Enfim, esses foram alguns pensamentos que nos levam para além das páginas de Um Cântico para Leibowitz e que tornam a leitura muito mais rica e interessante.

Este, definitivamente, é um livro que não deve ser apenas lido como entretenimento porque, como entretenimento, ele é fragmentado e sem nexo.

Porém, quando olhamos além de Um Cântico para Leibowitz, ele nos revela a mente assustada e traumática de um homem que viu demais.



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