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The Family Jewels: a jornada confusa e pessimista de uma jovem adulta

The Family Jewels: a jornada confusa e pessimista de uma jovem adulta

The Family Jewels é o primeiro álbum de estúdio da MARINA (na época, Marina and the Diamonds) e foi lançado em maio de 2010.

Ele foi o responsável por fazer com quem as pessoas conhecessem a música dela. O que é engraçado porque esse álbum tem como característica músicas sem papas na língua, com a Marina jogando na cara da sociedade tudo o que ela achava que estava errado com o mundo.

Então, todas as músicas vão ter algum tipo de crítica e algum tipo de “tapa na cara”.

Confere o menu deste conteúdo:

O que veio antes do The Family Jewels
Comentando as músicas do The Family Jewels
Analisando as músicas deluxe
Saldo final do álbum



O The Family Jewels teve um ótimo desempenho comercial quando foi lançado e continua sendo um dos álbuns mais relevantes da Marina. Até 2015, ele tinha vendido quase 200 mil cópias.

Deste álbum, saíram cinco singles e sete videoclipes oficiais, além de diversas apresentações em programas de TV da Europa e EUA e uma turnê, a The Family Jewels Tour, que durou quase dois anos.

Entre 2020 e 2021, depois de mais de uma década do lançamento, diversas músicas do álbum ressurgiram no TikTok, o que trouxe um pouco mais de visibilidade para a Marina.

O que veio antes do The Family Jewels

Antes de lançar o The Family Jewels, a Marina lançou alguns EPs relacionados com os temas do primeiro álbum. Em junho de 2009, veio o “The Crown Jewels EP“, um lançamento digital que tinha 3 faixas: I’m not a Robot, Seventeen e Simplify.

Já em março de 2010, Marina produziu o “The American Jewels EP” junto com a gravadora Chop Shop. Este segundo EP é composto pelas músicas I’m not a Robot, Mowgli’s Road, Hollywood e um remix de I’m not a Robot.

Comentando e analisando as músicas do The Family Jewels

Segundo a própria Marina, o The Family Jewels é um álbum sobre a sedução pelo consumismo, os valores sociais modernos e a sexualidade feminina. E isso fica explícito em diversas faixas.

A versão standart do The Family Jewels contém as seguintes músicas:

    1. Are You Satisfied?
    2. Shampain
    3. I Am Not a Robot
    4. Girls
    5. Mowgli’s Road
    6. Obsessions
    7. Hollywood
    8. The Outsider
    9. Guilty
    10. Hermit The Frog
    11. Oh No!
    12. Seventeen
    13. Numb

Porém, existem duas outras músicas dessa era que formam versões deluxe do álbum: Rootless e The Family Jewels.

Uma curiosidade é que duas músicas presentes no The Family Jewels já tinham aparecido enquanto versão demo no Mermaid Vs. Sailor, um EP que a Marina lançou em 2007. As músicas em questão são Hermit the Frog e Seventeen.

Simplify é uma música que está presente como demo no Mermaid Vs. Sailor, mas não chegou a fazer parte do The Family Jewels. A canção figurou apenas no EP “The Crown Jewels”.

Are you Satisfied?

Essa é uma das minhas músicas preferidas da Marina porque a letra tem muitas mensagens. Diferente das outras canções do álbum, essa não começa com música, ela começa com a melodia, com a Marina cantando.

E como ela é a primeira do álbum e já começa com a voz da Marina, a primeira impressão que temos é de como a Marina ficou nervosa quando conseguiu um contrato com sua gravadora. O primeiro verso diz:

“I was pulling out my hair
The day I got the deal”

Ou seja: ela estava tão nervosa por ter conseguido ser contratada para lançar um álbum, que estava arrancando os próprios cabelos.

Essa música fala bastante sobre conquistas da vida e sobre como o ser humano quase nunca fica satisfeito com o que tem e busca algo além. Então, começar falando sobre uma grande conquista que abre portas e tira uma pessoa do status quo é interessante.

Segundo a letra, a Marina sempre foi uma pessoa que teve uma atitude orgulhosa e um pouco arrogante. Ela também diz em algum momento que ela é controladora e uma conquistadora, alguém que tem um objetivo e vai fazer de tudo para conquistá-lo.

Isso, ela deixa claro no pré-refrão quando diz:

“It’s not my problem if you don’t see what I see
And I do not give a damn if you don’t believe”

Ela traz também nessa música a ideia de alguém que construiu sua carreira sozinha e de como ela precisou aprender a não dar ouvidos às críticas das pessoas porque ninguém tem a mesma visão sobre o que ela quer para o futuro.

A letra dessa música também acaba trazendo uma ideia parecida com Valley of the Dolls, de Electra Heart: e quando você chega ao objetivo? O que você faz depois?

Shampain

Essa música já começa com uma curiosidade, que é o título. Marina ficou conhecida depois de Electra Heart e Froot por usar grafias diferentes em palavras e, com isso, mudar o significado delas.

Ela fez isso em Teen Idle (que soa como ídolo adolescente, mas se traduz como adolescente desocupado) e aqui faz a mesma coisa com Shampain, que une shame (vergonha) + pain (dor) e faz referência à bebida champanhe.

Shampain também tem uma das marcas registradas da Marina: melodias alegres com letras tristes.

E quanto aos temas, a canção tem toda cara de ser uma música sobre a manhã seguinte de uma noite de sexo casual ou se uma recaída com um ex. Isso porque a ida para casa da mulher no dia seguinte é conhecida como a “caminhada da vergonha”.

Além disso, a letra dá a entender que a personagem da música está bebendo para esquecer alguma coisa, que tem algum problema, mas engaja em bebedeira e sexo casual para esquecer desse problema. Só que ele sempre volta para assombrá-la no dia seguinte.

Shampain também pode estar falando sobre um término que a personagem da letra não conseguiu superar. Especialmente porque existe o verso:

“Drinking champagne, meant for a wedding
Toast to the bride, a fairytale ending
Drinking champagne, a bottle to myself
Savor the taste of fabricated wealth”

O que esse verso traz é uma ideia que essa tristeza que a personagem está precisando afogar é o término de algo que poderia ter sido um casamento, no sentido de uma relação duradoura. Porém, agora, ela bebe o champanhe sozinha.

Confira no vídeo abaixo uma análise mais extensa sobre essas duas músicas:

 

 

I Am Not a Robot

Essa música foi o terceiro single de The Family Jewels, e eu vejo muita semelhança entre os temas dela com os temas de Are You Satisfied?. Enquanto lá, a Marina fala sobre conquistar seus objetivos sendo verdadeira a quem você é, aqui ela canta o seguinte verso:

“Better to be hated
Than loved loved loved for what your not”

E essa é muito uma atitude que eu vejo na Marina no início de carreira dela, tudo ser muito preto no branco, de ser autêntica. E essa é uma crítica que ela faz bastante, tanto que I am not a robot começa com um verso que é um discurso sobre a necessidade de ser autêntico.

Essa música também pode trazer uma referência à como as estrelas pop são vistas como robôs da indústria. Isso pode ser, na verdade, uma forma de a Marina dizer que ela está no universo pop, mas não é um robô, ela tem sentimentos e vontades.

I am not a robot fala bastante sobre a ideia de que ser vulnerável não significa ser fraco, o que é algo que a própria Marina custou a praticar na carreira dela. É ótimo como a letra da canção também fala um pouco sobre comunicação, quando diz que:

“You’re lovable, so lovable
But you’re just troubled”

Ou seja, uma pessoa pode ser de determinada maneira, mas as outras pessoas podem não conseguir entender. Talvez porque não haja uma boa comunicação ou porque a pessoa entendida errado está se comportando como um robô.

Girls

Eu tenho um certo problema com essa música porque eu não consigo entender se ela é uma ironia ou se é real. Isso porque ela começa com o verso:

“Look like a girl but I think like a guy”

E essa é uma frase clássica de quem quer diminuir a feminilidade, como se ser um homem fosse melhor. E esse comportamento se repete durante a música inteira, com a Marina afirmando que ela não é como as outras meninas e, por isso, ela é melhor.

Uma outra via de análise para essa música pode ser uma ideia de que a Marina se considera diferente porque ela não é da maneira como a sociedade espera que uma garota se comporte. E nesse sentido, a letra faz sentido, especialmente porque ela diz coisas como:

“Girls are not meant to fight dirty
Never look a day past thirty”

Porém, a maior parte do tempo, a letra fixa em tirar sarro de meninas que se comportam como a sociedade espera e não de apenas criticar a imagem esperada. Por isso, essa é a minha música menos preferida do álbum.

Mowgli’s Road

Nessa música, Marina mostra bastante de suas técnica vocais, especialmente o uso da laringe. E esse uso de técnicas diferentes combina bastante com a letra da música, que é bem surreal.

É como se a Marina estivesse narrando um sonho, onde as coisas não fazem muito sentido, mas que a gente pode fazer um esforço para interpretar.

Poderia ser uma canção sobre escolher o caminho certo dentro da indústria musical, seguir o caminho já trilhado por alguém ou criar o próprio. Os talheres que aparecem na estrada dão conselhos e talvez podem ser como mentores para ela.

A nível de curiosidade, tem uma frase nessa música que se repete em Life is Strange, do Love + Fear. Aqui, Marina diz:

“Do you think you will be good enough,
To love others and to be loved?”

E em Life is Strange, ela diz:

“Is it ever gonna be enough
To love another and be loved?”

Ou seja, apesar de anos terem se passado, a pergunta ainda permanece. Será que é o suficiente?

Obsessions

Essa música é uma das minhas favoritas porque minha teoria é que o tema da letra é a ansiedade. Alguns dos versos são a própria personificação da ansiedade, trazendo imagens sobre coisas desconectadas.

Eu interpreto como se uma pessoa com ansiedade estivesse conversando com a própria ansiedade e ela respondesse. Como o pré-refrão:

“Won’t you quit your crying?
I can’t sleep
One minute, I’m a little sweetheart
And next minute, you are an absolute creep”

Mistura muito a ideia de terceira e primeira pessoa, então isso dá a ideia de ser uma conversa dentro dela mesma entre os dois lados, o lado bom e o ruim.

Porém, ao mesmo tempo, podemos interpretar essa música como uma conversa que uma pessoa com ansiedade tem dentro dela própria quando pensa em começar um relacionamento ou lidar com um relacionamento.

Confira no vídeo abaixo uma análise mais aprofundada dessas músicas:

 

 

Hollywood

Hollywood foi o segundo single de The Family Jewels e, talvez, o mais bem sucedido dessa era.

A temática dessa música me lembra muito a era Electra Heart, como se as ideias já estivessem ali, querendo ser trabalhadas. Fala muito sobre a cultura que Hollywood exporta e como isso afeta o restante do mundo. A primeira linha do refrão é literalmente o seguinte:

“Hollywood infected your brain”

Mas na música, a Marina não fala só sobre a vida em Hollywood, ela fala sobre o sonhos americano e como pessoas de fora repetem a cultura americana como se fosse sua, mesmo que os EUA sejam um dos países mais polêmicos do mundo.

Aqui ela também traz a ideia de que estrelas da música e do cinema em Hollywood, você sempre é comparado com alguém. Ainda mais a Marina sendo uma mulher britânica, de fora do círculo americano.

Por isso, temos a icônica linha de Hollywood:

“Oh my god, you look just like Shakira
No no, you’re Catherine Zeta
Actually, my name’s Marina”

The Outsider

Essa é uma daquelas músicas do álbum que são mais obscuras para mim porque eu não escuto muito. Logo, não tenho uma opinião muito grande formada.

Porém, eu tenho a impressão de que é uma música sobre a indústria e sobre a luta da Marina para se provar. E é uma canção sobre ela se sentir deslocada, não se sentir pertencente ao lugar. Ela diz:

“People are connecting
Don’t know what to say
I’m good at protecting
What they want to take”

Mas também é uma música sobre como a Marina protege a si própria, suas opiniões e personalidade. Ela é durona, cria uma carapaça para se proteger do mundo.

Guilty

Essa também é uma música obscura para mim e confesso que não gosto de como ela soa. A música, ao que tudo indica foi inspirada em um sonho muito surreal que ela teve. Porém, eu consigo aproximar a letra com a vivência da Marina com a mãe e o pai dela.

Ela se sente culpada nessa música, então pode ter algo a ver com a situação de quando a Marina deixou a casa da mãe e foi morar com o pai. Guilty também tem uma estrutura diferente, com um refrão enorme.

Hermit the Frog

Essa é uma música que fazia parte do EP Mermaid Vs. Sailor e eu já fiz uma análise da versão demo dela neste artigo. Porém, as coisas mudam um pouco de figura com a produção de um álbum, então vamos lá.

É uma canção de amor, acredito, especialmente um amor adolescente porque as sensações são parecidas com o que os amores adolescentes trazem. Também traz uma ideia de aparência vs. personalidade e também de expectativa quanto à mulher. Porque ela fala em um dos versos que:

“They say you used to be so kind
I never knew you had such a dirty mind”

Como se uma pessoa que é boa não pudesse ter a mente suja, especialmente uma mulher. Mas o relacionamento mostrado aqui terminou antes do que deveria e o cara com quem ela estava não era uma boa pessoa, pelo que parece.

Veja no vídeo abaixo uma análise mais aprofundada sobre essas músicas:

 

 

Oh No!

Essa é mais uma das músicas que fala sobre as vivências da Marina na indústria e os desejos que ela tem para o futuro, porém essa música acaba pegando uma via bem mais irônica e exagerada.

O refrão é uma parte dessa canção que conversa bastante com os temas de Are you Satisfied? e Hollywood, no sentido de a Marina falar sobre o que ela quer, sobre quem ela é e como ela não vai mudar por causa da fama.

Também traz uma ideia de alguém que lutou para chegar onde chegou, que é o caso da Marina. Ela quis se tornar cantora e ela lutou por isso, então é interesse ver a seguinte linha no refrão:

“I’m now becoming my own self-fulfilled prophecy”

Ninguém disse, e nem acreditou, que ela chegaria lá, mas ela fez essa profecia se concretizar.

Seventeen

Eu também já falei sobre essa música aqui no blog, mas vamos lá! A minha teoria no post que citei acima é que a música fala sobre perder a virgindade. Porém, podem ser duas coisas diferentes.

Pode falar sobre um relacionamento não muito bom com um cara que ela conheceu quando morava com o pai na Grécia, mas também sobre o que aconteceu dentro desse relacionamento.

Pode ser um relacionamento um pouco tóxico, no qual um cara rico queria controlar a vida da Marina e ela vestiu sua habitual carapaça para se proteger, já que é uma música que vem de um lugar muito amargurado.

Porém, também podemos analisar essa música como sendo sobre a relação da Marina com o pai dela, que não era uma relação muito boa quando ela era adolescente. E como os pais se separaram quando ela tinha 4 anos, o pai era praticamente um estranho para ela.

Numb

Então, chegamos na última música do álbum, Numb. Essa música começa com uma frase que a gente já ouviu no álbum antes:

“One track mind, like a goldfish”

E em Oh No!, ela é a seguinte:

“One track mind, one track heart”

Significa uma mente focada, fechada. Essa é uma música mais leve e mais tranquila, mas a letra é um pouco pesada. Ela se sente pesada em algum lugar, sendo observada e analisada.

Confira abaixo a análise mais aprofundada sobre as músicas:

 

 

Analisando as músicas deluxe

Este álbum tem duas músicas deluxe, Rootless e The Family Jewels… então, vamos dar uma olhadinha nelas?

Rootless

Eu adoro a sonoridade dessa música, parece uma trilha sonora de filme. Parece falar sobre fuga, mas não porque a pessoa quer, mas porque foi forçada a isso por um motivo ou por outro.

E levando em conta que o The Family Jewels tem referências abertas à vida da Marina e a relação dela com a família dela, pode muito bem ser que essa música seja uma referência ao período em que ela saiu de casa para perseguir a carreira musical.

The Family Jewels

Algo que a gente já pode deixar claro é que essa música foi escrita para a família dela, até porque o título do álbum, e dessa música, “The Family Jewels” é uma alusão aos testículos dos herdeiros homens, as joias da família, quem vai carregar o legado para as próximas gerações.

Só que no caso dos Lambrini Diamandis, quem vai levar é uma mulher, a Marina. Essa me parece ser uma música bem pessoal em que a Marina não usa muitas metáforas e nem meias palavras, ela fala o que precisa e passa o recado que quer.

Saldo final do álbum

The Family Jewels tem uma narrativa interessante sobre como a Marina começou a carreira. Ela abriu esse álbum falando sobre como ela tinha um grande objetivo e terminar com um olhar não tão positivo sobre esse mesmo objetivo.

A gente tem algumas músicas aqui que são sobre coisas da vida, mas eu acho que ao mesmo tempo tem uma gama bem grande de músicas que falam sobre a experiência na indústria, ou os medos sobre a indústria.

Muitos fãs comentam que esse álbum seria sobre odiar a si própria, mas acho que tem mais a ver com tentar encontrar seu lugar no mundo e, enquanto faz isso, tentar se manter fiel a si própria.

E isso muitas vezes vem com medo e arrogância. É como se a Marina quisesse explorar o mundo, morrendo de medo de algo dar errado, mas em vez de mostrar o medo, ela mascara esse sentimento com arrogância.

The Family Jewels tem tudo a ver com juventude e com experimentação.

Leia também:

Mermaid Vs Sailor: o primeiro EP de Marina and The Diamonds

Electra Heart: uma história que questiona o papel social da mulher

Como Immortal, da MARINA, fala sobre o medo da morte, e o que isso tem a ver com memória



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