Pular para o conteúdo
teste de bechdel - a tirinha escrita por alison bechdel em 1985

O que é o Teste de Bechdel, para que serve e por que apenas ele não é o suficiente

Se você está por dentro de discussões sobre mulheres e mídia, já deve ter se deparado com o Teste de Bechdel, certo?

Esse teste é composto por três perguntas e serve para medir a representação feminina em uma história.

Inicialmente, a ideia se aplicava apenas ao audiovisual, porém também começou a ser aplicado em livros, obras de teatro, videogames, etc.

O Teste de Bechdel apareceu pela primeira vez como uma provocação feita por uma personagem criada pela cartunista Alison Bechdel e hoje é uma das formas mais conhecidas de avaliar a presença de personagens femininas em histórias.

Neste artigo, vamos explorar o que é o Teste de Bechdel, quais são as histórias que passam, e não passam no teste, e, por fim, vamos tentar entender o motivo de o Teste de Bechdel sozinho já não funcionar mais.

Você vai conferir:

A representação feminina na mídia
O que é o Teste de Bechdel?
A importância do Teste de Bechdel
Por que apenas o Teste de Bechdel não é suficiente?
10 boas histórias que passam no Teste de Bechdel

A representação feminina na mídia

A discussão sobre a representação feminina na mídia não começou com o quadrinho de Bechdel, mas muito antes.

Virginia Woolf, ainda em 1929, em Um Teto Todo Seu, já falava sobre o assunto, especulando os motivos de as representações femininas em livros e no teatro girarem apenas em torno dos papéis domésticos e em relação aos homens.

Sobre isso, a escritora diz que não conseguia se lembrar de uma história em que duas mulheres fossem amigas. Ou elas eram mãe, filha ou irmã de um personagem masculino.

a escritora virginia woolf

A escritora Virginia Woolf

Nesse contexto, personagens femininas não seriam escritas para serem mulheres, mas para cumprirem um papel na vida de um homem.

E esse problema de representação feminina não acontece apenas dentro das histórias, mas fora delas.

O número de mulheres que criam histórias e ganham algum destaque ainda é pouco expressivo.

Podemos perceber essa disparidade ao olhar para premiações e eventos literários, por exemplo.

O Prêmio Nobel de Literatura existe desde 1901, mas apenas 14 mulheres até hoje receberam o título.

A Academia Brasileira de Letras tem 40 membros, mas apenas 5 deles são mulheres.

A Flip, Festa Literária de Paraty, teve 16 edições até hoje, mas o número de escritoras convidadas é muito menor do que o número de escritores que participam.

Além disso, muitas autoras, ainda hoje, são desencorajadas a escrever para determinado público ou são instruídas a usarem pseudônimos e abreviações para que homens também comprem suas obras.

Exemplos famosos são as autoras P.L. Travers e J.K. Rowling.

Entre a primeira publicação das duas, Mary Poppins (1934) e Harry Potter e a Pedra Filosofal (1997) respectivamente, existem 63 anos.

Porém, a instrução de editores para as duas foi a mesma: vamos usar abreviações porque não acreditamos que meninos vão querer ler os livros se souberem que foram escritos por mulheres.

P.L. Travers, autora de Mary Poppins

P.L. Travers, autora de Mary Poppins

Representação feminina no cinema

A representação feminina também seguiu essa tendência no cinema.

Em um estudo publicado em 2012, pesquisadores da Universidade da Pensilvânia assistiram diversos filmes lançados entre 1950 e 2006 para observar as tendências de violência sexual e física e observar a distribuição de gênero entre os personagens.

Eles descobriram que existia, em média, uma personagem feminina para cada dois personagens masculinos e que essa proporção nunca mudou significativamente com o passar do tempo.

Eles também observaram que as personagens femininas se envolviam com sexo nas histórias o dobro de vezes que os personagens masculinos, sendo que a proporção de cenas explícitas em filmes só aumentou com o tempo.

Por último, os pesquisadores observaram que as cenas de violência cresceram igualmente para personagens femininos e masculinos.

Ou seja, não é um cenário muito bom para as personagens femininas, que estão presentes em menor quantidade, mas aparecem muito mais em cenas de sexo e violência.

O que é o Teste de Bechdel?

A ideia para o Teste de Bechdel apareceu pela primeira vez em 1985 no quadrinho Dykes to Watch Out For, da cartunista Alison Bechdel.

Na história “A Regra”, duas personagens conversam sobre como elas pouco se veem representadas e uma delas diz que só assiste filmes que passarem no seguinte teste:

    1. Ele tem, pelo menos, duas personagens femininas?
    2. Elas conversam entre si?
    3. Elas conversam sobre algo que não é um homem?

Respondendo “sim” para as três perguntas, um filme passaria nos pré-requisitos da personagem e ela assistiria.

E embora o teste se chame “Teste de Bechdel”, a autora deixou claro que a ideia para as perguntas não foi sua, mas de sua amiga Liz Wallace.

Isso faz com que muitas pessoas conheçam o teste como “Teste de Bechdel-Wallace”.

Como funciona o Teste de Bechdel?

Como dissemos acima, a aplicação do teste é extremamente simples.

Caso uma história tenha duas personagens femininas que conversam entre si sobre algo que não é um homem, ela é aprovada.

O que o Teste de Bechdel nos mostra não é tanto a quantidade de personagens femininas e nem a qualidade da história analisada, mas se há representação feminina.

A intenção, na maior parte das vezes, é fazer o espectador exercitar seu senso crítico.

a criadora do teste alison bechdel

A criadora do teste, Alison Bechdel

O que Alison Bechdel diz sobre o teste

É curioso como para a criadora do teste, as regras eram uma piada. Em entrevista ao Hypeness em 2019, ela disse que:

“Foi meio que uma piada entre mim e minhas amigas nos anos 1980. As feministas com quem eu saía naquela época e eu nos sentíamos ignoradas pela cultura, porque ela era dedicada a homens brancos e héteros. E nós fazíamos piadas a respeito de como não tínhamos filmes com mulheres que se parecessem com pessoas verdadeiras, que falassem umas com as outras. Parecia ser impossível.”

Alison Bechdel também disse que as regras continuariam sendo uma piada se feministas não tivesse redescoberto o quadrinho e o transformado em um teste sério e que mexe tanto com a indústria do entretenimento.

A autora ainda disse como ela sente que essa “conquista” é algo completamente aleatório:

“Eu me importo de verdade com a subjetividade feminina e este tem sido um dos focos do meu trabalho, mas eu não me responsabilizo por isso. É só uma peculiaridade cultural engraçada.”

Sobre como as histórias evoluíram com o tempo, até talvez ajudadas pelas percepções do teste, a autora comenta que elas não estão perfeitas, mas que hoje existem histórias muito mais complexas e com mulheres muito mais reais do que antes.

O que é uma vitória em muitos aspectos.

A importância do Teste de Bechdel

A maior importância do Teste de Bechdel é, sem dúvida, fazer com que o espectador se questione sobre o que está assistindo e sobre quem está na tela.

E além disso, se perguntar, se a história não passar no teste, de quem é a culpa? É da indústria, dos roteiristas e diretores, dos escritores ou do público?

Porém, ao mesmo tempo a ideia não é atirar pedras nesses supostos culpados, mas entender como a representação das mulheres na mídia não é algo pontual, mas sistemático.

Se diversos filmes de super herói não passam no Teste de Bechdel, a culpa é do diretor? Ou de uma sociedade inteira que acredita que o papel de uma mulher não é estar no campo de batalha, mas em casa cuidando dos filhos?

Cena do filme “Vingadores: Ultimato” de 2019

O impacto

Desde que começou a ganhar fama, o teste já impactou muito a indústria da mídia.

Muitas pessoas se dedicam a criar listas usando as perguntas de Bechdel e também muitos estudiosos têm olhado para trás em busca de analisar a representação feminina.

Segundo um jornalista da Entertainment Weekly, se passar no teste fosse obrigatório para concorrer ao Oscar, a maioria dos filmes indicados não se classificaria.

E de acordo com o site Vocativ, metade dos filmes recorde de bilheteria não passa no teste. Também é interessando observar o aspecto financeiro que o Teste de Bechdel ajudou a trazer à tona.

Segundo um estudo do FiveThirtyEight, que analisou 1.615 filmes lançados entre 1990 e 2013, os filmes que passam no teste têm menor orçamento, mas maior retorno sobre o investimento.

Ou seja, eles custam menos, mas acabam arrecadando mais, o que nos leva a crer que “colocar mulheres na tela” atrai mais público.

Inspirada pelo teste, e pela revolução que ele estava trazendo, a sueca Ellen Tejle começou a utilizar um selo para marcar os filmes que passavam no Teste de Bechdel.

Ela assistia aos filmes em cartaz e marcava no próprio cinema, usando o selo, que eles passavam no teste. No Brasil, a iniciativa foi adotada em 2017, porém sem grande impacto.

As variações

Com o passar do tempo, e percebendo que o Teste de Bechdel também tem suas falhas, espectadores, leitores e estudiosos começaram a adaptar as perguntas do teste para outras mídias e outros focos.

Foi-se acrescentando nuances às perguntas como: personagens femininas com nome e a conversa entre elas precisa durar 60 segundos.

Em 2013, a GLADD apresentou o Teste de Russo, uma ferramenta similar ao de Bechdel, mas para avaliar a representação LGBTQIAP+. As perguntas também são três e o teste recebeu seu nome em homenagem ao historiador e co-fundador da GLAAD, Vito Russo:

    1. A obra tem personagens que se identificam como como lésbica, gay, bissexual e/ou transgênero?
    2. Esse personagem é definido apenas por sua sexualidade ou identidade de gênero?
    3. Se o personagem for tirado de cena, causaria algum impacto na trama?

Além do Teste de Russo, existe uma outra variação muito famosa do teste, que é o Teste de Mako Mori.

A personagem Mako Mori, de Círculo de Fogo (2013)

Por que apenas o Teste de Bechdel não é suficiente?

A essa altura, você já deve ter percebido que embora o Teste de Bechdel seja uma ótima ferramenta para fazer uma pessoa se questionar sobre a representação feminina na mídia, ele não é uma ferramenta que dá todas as respostas.

O teste pode ser falho se não for levado em conta o contexto da história, a trama e os temas.

Por exemplo, foi percebido pelo site NPR que diversas obras que falham no teste são filmes, séries e livros criados com o público feminino em mente e que tratam de uma variedade de temas.

Se analisarmos a série Sex and The City, ela não passa no teste.

Porém, a série lançada em 1998 também trouxe alguns avanços sobre as discussões envolvendo sexualidade feminina, carreira vs. família e os valores da mulher moderna em um mundo capitalista.

E por conta desse contexto, a série não pode ser julgada como uma história ruim apenas por que não passa no Teste de Bechdel.

Algo que foi citado no livro One-Dimensional Woman, da autora Nina Power, é que a maior parte das obras que passam no teste são aprovadas porque a conversa entre as duas personagens femininas é sobre casamento ou bebês.

Nesse sentido, também não podemos considerar apenas o teste, mas o contexto da história. Por isso, depois de tantas discussões, análises usando o teste e conversas sobre o Teste de Bechdel em si, entende-se que ele, sozinho, não funciona mais.

A personagem Miranda, de Sex and The City

Ele seria um piso, como afirma Nathalia Engler em entrevista ao site Bitniks, e não uma meta.

Segundo ela, é preciso olhar também para quem está por trás das telas. Uma mulher é a responsável pelo roteiro? E pela direção?

Não basta termos personagens femininas em histórias conversando uma com a outra sobre algo que não um homem se não existe representação real na criação dessas obras.

Enquanto a produção vir essencialmente de pessoas do sexo masculino, a representação feminina na mídia vai acabar sendo superficial.

10 boas histórias que passam no Teste de Bechdel

Agora que já falamos sobre tudo o que envolve o Teste de Bechdel, vamos falar sobre boas histórias aprovadas na avaliação.

Vale dizer que essa lista não leva em consideração apenas o teste, mas o contexto e trama do filmes também. Vamos lá:

    1. As Virgens Suicidas (1999), Sophia Coppola
    2. Melancolia (2011), Lars Von Trier
    3. Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa (2020), Cathy Yen
    4. Nós (2019), Jordan Peele
    5. Lady Bird: hora de voar (2017), Greta Gerwig
    6. O Piano (1993), Jane Champion
    7. Para sempre Alice (2015), Richard Glatzer
    8. Adoráveis Mulheres (2020), Greta Gerwig
    9. Carol (2016), Todd Haynes
    10. Coraline e o Mundo Secreto (2009), Henry Selick

5 boas histórias que NÃO passam no Teste de Bechdel

E como dissemos acima, existem histórias com tramas simplistas e até preconceituosas que passam no Teste de Bechdel assim como existem tramas complexas e e cheias de questões que não passam no Teste de Bechdel.

Confira algumas boas histórias que NÃO passam no teste:

    1. Star Wars (1977-atualmente), George Lucas
    2. Saga Harry Potter (2001-2011), Chris Columbus, Mike Newel, Alfonso Cuarón e David Yates
    3. O Senhor dos Anéis (1999-2001), Peter Jackson
    4. O Jogo da Imitação (2014), Morten Tyldum
    5. Ratatouille (2007), Brad Bird e Jan Pinkava

Cena do filme “Adoráveis Mulheres” de 1994

Para concluir…

Como vimos, o Teste de Bechdel é uma ferramenta que surgiu em 1985 no quadrinho “As Regras” da cartunista Alison Bechdel.

Inicialmente pensado como uma piada, o teste ganhou o público e se tornou um parâmetro importante para entender a representação feminina em uma história.

Com o passar do tempo, entretanto, descobrimos que existe muito mais para a representação feminina em uma história além de ter duas personagens mulheres que conversam entre si sobre algo que não um homem.

Existe o contexto, a trama e os temas, e quem está por trás das câmeras e da criação da obra.

Porém, isso não impede que usemos o teste para nos questionar sobre quais peças de entretenimento estamos consumindo.

Por isso, quando estiver assistindo televisão ou lendo um livro, se pergunta se essa obra representa mulheres reais e traz questões relevantes.

Obrigada por ter acompanhado esse texto até aqui e e se você quiser receber mais reflexões como esta todos os meses no seu e-mail, assine a newsletter!

Leia também:

Como evitar escrever uma narrativa machista no seu livro

Autoras de fantasia nacional para ficar de olho e colocar na lista de leitura

As personagens femininas em Jogos Vorazes, da Suzanne Collins



Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.