O que eu aprendi testando a rotina de escrita de 8 autores consagrados

O que eu aprendi testando a rotina de escrita de 8 autores consagrados

Uma das partes mais importantes de ser um escritor profissional é ter hábitos e uma rotina de escrita estabelecidos.

Independente de você decidir escrever em determinada hora do dia, em determinado lugar ou bebendo algo específico, os hábitos que formam a sua rotina acabam fazendo parte do seu processo de escrita.

E eu andei pensando bastante sobre a minha rotina, porém só consegui chegar à conclusão de que… eu não tenho uma rotina.

Por isso, tentando ser mais eficiente, já que eu ando inconsistente para escrever, resolvi testar aspectos da rotina de escrita de 8 autores consagrados.

Assim, eu esperava descobrir o que, na rotina de escrita deles, poderia ser bom para mim e o que eu poderia incorporar.

A rotina de escrita de 8 autores consagrados

Eu comecei esse processo pesquisando todas as rotinas de escrita de autores conhecidos e consagrados que eu consegui encontrar.

E foram várias! Existem pelo menos quatro fontes de onde eu consegui colher informações: essa, essa, essa e essa.

A primeira coisa que eu fiz quando tinha todas as rotinas em mãos foi riscar aquelas que eu sabia que nunca iriam funcionar para mim.

Por exemplo, a rotina do Haruki Murakami continha acordar às 4 da manhã, correr 10 km, nadar 1500 metros e ir dormir às 9 da noite. Eu sou uma coruja sedentária, seguir essa rotina seria um inferno.

Então, eu coloquei um limite: se a rotina difere muito do que eu já faço, ou me deixaria desconfortável, está fora. E depois dos cortes, fiquei com 8 rotinas para testar:

  • Stephen King: a grande coisa da rotina do King é que ele escreve absolutamente todos os dias (em feriados, aniversários e finais de semana, inclusive) e só para de escrever quando atinge uma meta, normalmente 6 páginas ou 2000 palavras.
  • Joan Didion: o que me chamou atenção na rotina da Joan foi o fato de ela separar bem o papel de escritora e o de editora. Ela escreve durante o dia sem se preocupar com edição e reserva uma hora por dia, antes do jantar, para editar o que escreveu durante o dia e deixar notas para si própria.
  • Anais Nin: essa é simples, mas eu gostei de como existe uma autoavaliação, ou autoanálise, ao mesmo tempo. Ela escreve ficção durante o dia e escreve em seu diário à noite.
  • Henry Miller: muito social e organizado, Henry incluiu ver seus amigos, ler em cafés e explorar lugares novos da cidade em sua rotina. Essa é uma boa dica porque você sai um pouco do seu escritório para respirar ar puro e desopilar, de repente até ter ideias novas por causa disso.
  • Simone De Beauvoir: a rotina da Simone é parecida com a do Henry, ela escreve durante o dia, faz uma pausa à tarde para ver algum amigo, e depois volta para escrever. É uma maneira de voltar para a escrivaninha com mais energia.
  • Maya Angelou: eu adorei a rotina da Maya porque ela também incluía tarefas domésticas. Ela diz que gosta de fingir que é normal, então ela escreve de manhã e faz o que precisa fazer durante a tarde, como ir ao mercado e lavar a louça. Depois ela volta para revisar e editar o que escreveu de manhã.
  • William Gibson: a rotina do Gibson não é tão interessante ou diferente das outras, e ela inclui coisas como “levantar às 7 da manhã e fazer pilates 3x por semana, mas eu adorei que ele disse que os cochilos são essenciais para que ele faça um bom trabalho.
  • Don DeLillo: o Don resolveu juntar quase todas as outras rotinas na sua, ele escreve de manhã por 4 horas seguidas, depois sai para a rua para fazer exercícios. É uma forma de desopilar e se manter ativo ao mesmo tempo, já que o trabalho do escritor é bastante sedentário.

E… eu tentei testar todas essas rotinas, mas não tive sucesso

Em determinado momento, eu cheguei a anunciar no meu Instagram que iria testar por uma semana cada uma dessas rotinas, porém não deu certo.

Na prática, nenhuma dessas rotinas se encaixou na minha rotina pessoal e nas tarefas que eu tinha no meu dia a dia.

Depois de algumas tentativas foi quase como se eu quisesse ficar confortável dentro de roupas que não me servem mais. Ficou forçado e sem graça, e por vezes eu até perdia completamente a vontade de escrever por causa do processo.

Maya Angelou

Mas para não dizer que nenhuma delas funcionou, a rotina de escrita do Stephen King foi uma benção e funcionou super bem para mim. Eu fluí bastante e avancei bastante no meu manuscrito.

Porém, com o restante das rotinas eu apenas consegui aproveitar alguns aspectos.

O que eu aprendi com as rotinas de escrita desses autores

Reproduzir a rotina de outra pessoa nem sempre vai funcionar porque a sua vida pode ser completamente diferente.

Começando pelo fato de que esses autores cujas rotinas eu citei são escritores profissionais, eles não fazem mais nada além de escrever para ganhar dinheiro.

O que eu duvido que seja a realidade de muitos autores nacionais e iniciantes. Porém, como eu tirei algumas lições com o experimento falho, vocês também podem tirar.

1 Escrever pela manhã

Como eu falei, sou uma pessoa noturna. Eu detesto levantar cedo, mas eu confesso para vocês que escrever de manhã foi uma das experiências mais interessantes porque minha escrita fluiu muito bem.

Por exemplo, durante os testes da rotina do King, eu cheguei a escrever 3000 palavras em 1 hora e meia.

E eu acho que isso aconteceu porque a manhã é quando o nosso cérebro não está tão cansado e as ideias fluem melhor. É mais fácil ter novas ideias ou resolver aquele problema na trama que estava incomodando há muito tempo.

Anaïs Nin

Talvez seja justamente por entender que o melhor para o processo de escrita é estar descansado e sem tantas influências do mundo exterior que muitos autores adotaram escrever pela manhã.

2 Colocar uma meta

Não foi surpresa encontrar as metas nas rotinas de alguns desses autores porque metas ajudam na eficiência. Se você não tem um deadline ou uma meta diária, acaba deixando procrastinando.

E está tudo bem fazer isso porque procrastinar é o modus operandi do ser humano. Porém, se você quer terminar um livro em menos tempo que uma década, coloque metas.

Colocando a meta de escrever, pelo menos, 6 páginas publicáveis por dia (seguindo a meta do King) eu consegui avançar muito no meu original. No começo de uma semana, eu tinha 9 capítulos prontos, mas no fim dela eu já tinha chegado a 14.

3 Separar os papeis de escritor e editor

Esse aspecto foi o que mais me chamou atenção na rotina da Joan Didion, e foi muito interessante testar.

Eu separei uma hora do meu dia (normalmente de manhã, antes de começar a escrever) para fazer o papel de editora.

Lia o texto com calma e sendo bastante crítica, enchia de comentários e tentei pensar o tempo inteiro durante aquela tarefa como leitora crítica.

Então, só depois de fazer todas as notas que eu achava necessárias, eu colocava o chapéu de escritora e começava o dia de escrita arrumando o que as notas apontavam.

Joan Didion

É um processo um pouco mais lento, mas é maneira de evitar travar porque é muito comum que a gente queira editar o texto enquanto escreve, tentando achar o ritmo perfeito e a frase perfeita.

Só que fazer as duas coisas ao mesmo tempo não permite que a gente saia do lugar com a mesma velocidade que tarefas separadas, então o ato de escrever acaba se tornando enfadonho.

Por isso, literalmente separar os papeis de escritor e editor na rotina de escrita foi um aprendizado importante.

4 Socializar e sair de casa

Esse é um ponto em que eu peco muito porque sou introvertida, antisocial e individualista. Porém, desopilar é parte essencial do processo de escrita.

Dizem que quando você terminar um manuscrito, o ideal é deixá-lo descansando por semanas antes de você pegá-lo para ler porque assim vai ser mais fácil se distanciar.

E a mesma coisa vale para a rotina diária de escrita. Isso porque você pode ficar cansado, ter burnout, e nunca mais sentir vontade de terminar o que começou.

Então, se você escreveu durante 4 horas seguidas ou já chegou na sua meta, por exemplo, não tenha medo de ir fazer outra coisa e deixar a escrita para o dia seguinte.

Se permita sair da frente do computador e desopilar. Vá encontrar alguns amigos, vá beber um café em um bar ou vá visitar sua família.

Tenha espaço na sua agenda para outros hobbies e atividades também porque um cérebro descansado é um cérebro mais criativo (lembra do aprendizado 1?).

Porém, se lembre de que ainda estamos em meio a uma pandemia, então faça tudo isso com segurança.

Simone de Beauvoir

Eu não sou muito de sair, e ainda fico receosa de frequentar lugares públicos, mas eu voltei a acompanhar séries de TV, assistir filmes e costurar durante esses testes.

O bom desse aprendizado, também, é aprender que você precisa sair do ambiente de escrita, fisicamente e mentalmente.

Não apenas feche o documento do seu manuscrito quando chegar na sua meta, mas saia da frente do computador ou leve o computador para outro lugar na sua casa.

Em conclusão…

Eu não sei exatamente qual é a minha rotina de escrita, mas eu aprendi que copiar a dos outros em totalidade não funcionou para mim.

O que funcionou foi observar e testar certos hábitos para entender o que eu poderia absorver e tornar hábito. E eu encontrei algumas coisas.

E se eu encontrei, vocês podem encontrar também, então não deixem de testar e ver o que funciona para você!



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