O que fazer quando você receber uma crítica negativa

O que fazer quando você receber uma crítica negativa

Faz algumas semanas que eu tenho acompanhado a saga de uma autora que publicou seu primeiro livro de maneira independente e que não está sabendo receber críticas negativas.

A abordagem principal usada por ela é a de que “se você não tem nada bom para dizer, não diga nada”.

Porém, enquanto essa abordagem é ótima quando falamos de relações sociais, ela não funciona para a literatura porque todo leitor faz uma crítica. E muitas delas serão negativas.

Uma nota 2,5 é uma crítica negativa, isso significa que o livro é regular e que não encantou o leitor por algum motivo.

Abandonar um livro também é uma crítica negativa porque significa que algo na história incomodou tanto o leitor que ele parou de ler.

As críticas negativas não vem apenas em forma de resenha e, querendo ou não, colegas escritores, nós precisamos aprender a lidar com elas.

Por isso, eu resolvi explorar um pouco o assunto neste artigo e falar sobre como NÃO reagir a uma crítica negativa e como podemos nos blindar contra elas.

Antes de tudo, o que é uma crítica negativa?

Eu não sei vocês, mas eu não acredito muito nessa classificação que nós fazemos entre críticas positivas e negativas.

Eu tendo a acreditar que toda crítica é negativa, isso porque a natureza da crítica é analisar e indicar o que funcionou e o que não funcionou.

O dicionário do Google diz que uma crítica é a “arte, capacidade e habilidade de julgar, de criticar; juízo crítico; atividade de examinar e avaliar minuciosamente uma produção artística, literária ou científica, bem como costumes e comportamentos.”.

Ou seja, é julgar se uma peça é boa ou ruim de acordo com critérios e depois de uma análise.

E eu tenho a impressão de que quando uma peça de mídia passa pelo escrutínio de alguém sempre aparecerão pontos negativos. Logo, toda crítica acaba sendo negativa.

Mas se você é do tipo que acredita que existem críticas positivas e negativas, uma crítica negativa seria aquela que fala mal de uma peça de mídia.

Na crítica negativa, o crítico consome a obra, analisa de acordo com sua bagagem e seus gostos e, por fim, emite a opinião de que ele não acha que a obra é boa por causa disso e daquilo outro.

Quem é o crítico para criticar?

Outra discussão que eu vejo acontecer bastante é: quem é você para criticar meu trabalho?

Isso porque a gente, enquanto escritor, trabalha muito com a ideia de público-alvo. Então, se eu escrevi um livro para o público jovem adulto, e um adulto leu meu livro e não gostou, isso significa que a crítica dele não é válida.

Ok, faz um certo sentido, mas a gente não vai nem pensar no que esse adulto indicou como negativos?

O que a gente tem que ter em mente é que não é só o nosso público-alvo que vai ler o nosso livro, são todas as pessoas que tiveram acesso à história e se interessaram por ela.

Porém, essas pessoas podem vir de backgrounds muito diferentes. Até porque a delimitação de um público-alvo no marketing para escritores é feito basicamente pelos interesses.

E pessoas de diferentes idades, faixas salariais e vivências podem ter os mesmos interesses. E elas vão dar opiniões diferentes sobre esses interesses baseadas em seus backgrounds.

O que eu quero dizer com tudo isso é que não existem críticas não-válidas só porque o crítico não é seu público-alvo. Sim, é dever do crítico entender quem é o público-alvo e fazer sua avaliação baseada nisso.

Porém, a gente não tem controle sobre os leitores comuns que apenas se interessaram pela sinopse sem saber que seu livro não era para eles.

Lembrando que existe diferença entre crítica negativa e opinião tóxica

Um dos argumentos que a autora citada no início do texto usa é de que as pessoas que estão criticando negativamente o livro dela são haters emitindo opiniões tóxicas. E por isso, nós precisamos entender a diferença.

Uma crítica negativa vai ter argumentos para o que a pessoa está dizendo, mesmo que esses argumentos sejam algo como “não gostei porque o livro não me prendeu”.

Isso é um argumento porque o leitor está dizendo que o livro não chamou a atenção, logo, tem algo na trama que não funciona. Talvez o ritmo esteja muito lento ou os personagens, rasos.

Mas independente do motivo, a crítica negativa tem argumentos.

Agora, a opinião tóxica de um hater não tem argumentos e normalmente não é voltada somente para a história, mas para o autor. Uma opinião tóxica é ofensiva para a pessoa do autor, não só para sua obra.

E, sinceramente, não é difícil separar os dois se o escritor tiver maturidade suficiente para distinguir uma crítica de uma ofensa.

Agora sim, como lidar com uma crítica negativa

Eu vou ser sincera para vocês e dizer que eu nunca recebi muitas críticas negativas. Isso não porque minhas histórias são perfeitas, mas porque eu publiquei pouco mesmo.

Mas mesmo assim, a primeira lição que eu aprendi sobre lidar com elas é se afastar emocionalmente.

Se afaste emocionalmente da sua história

Em 2014, quando eu lancei meu primeiro conto em uma antologia, a única opinião que foi dita publicamente sobre o meu conto é que ele “era muito óbvio no quesito dos nomes dos personagens e que não fazia sentido uma cidade ser conhecida como tendo um eterno verão se os personagens viviam no deserto”.

O que eu fiz na hora? Eu neguei tudo, eu me recusei a aceitar aquela crítica. E eu confesso para vocês que eu só aceitei e entendi essa crítica no ano passado, quando eu reli o conto e percebi que aquilo fazia sentido.

Eu poderia ter dado nomes para os personagens e poderia ter planejado melhor o sentido das coisas.

Mas eu só consegui aceitar e entender a crítica quando eu me afastei emocionalmente dela. E essa é a lição mais importante que precisamos aprender enquanto escritores: o livro foi a gente que escreveu, mas quando a gente publica, ele não é mais nosso.

O público vai fazer o que quiser com a nossa história e interpretar do jeito que ele quiser, e a única coisa que podemos fazer é aceitar e entender.

Porque senão vamos virar a J.K. Rowling no Twitter, que corrige cada errinho sobre Harry Potter e continua adicionando coisas na história décadas depois. E ninguém quer virar a J.K. Rowling.

Não responda e tente entender de onde veio a crítica

Antes de sair respondendo toda crítica que aparecer, se afaste emocionalmente e pense sobre ela.

De onde ela veio? Será que ela faz sentindo? O que essa crítica pode significar? A lição aqui é aprender com a crítica e não repetí-la.

Como eu já falei no tópico anterior, se um leitor diz que a obra “não o prendeu” e ele dá duas estrelas, a sua reação não pode ser dizer que ele não é o público-alvo ou que ele deveria só dizer coisas boas.

Você precisa se acalmar, se afastar e pensar se a crítica faz sentido.

Quando eu passei o meu livro, o Onirismos, para os leitores beta, uma das opiniões foi que o que uma das situações não passava o medo suficiente para que o personagem agisse de uma determinada forma e que, por isso, não fazia sentido todo o desenrolar.

E a minha primeira reação foi negar a opinião, dizer que passava sim e que eu preferia deixar do jeito que estava.

Acontece que o outro leitor beta me trouxe a mesma coisa, disse que eu queria passar medo, mas não tinha coragem de deixar mais sangrento.

E o que eu fiz? Neguei de novo? Não, eu me afastei emocionalmente e aceitei. Fui de volta ao planejamento.

E não há nada de errado em entender que você pode ter cometido algum erro, o importante é aprender com o erro e acertar na próxima.

E se você não consegue fazer nenhum desses, não leia as críticas

Dizem que os olhos não veem, o coração não sente.

Então, se você não consegue se afastar emocionalmente da sua história e nem tentar entender os argumentos presentes na crítica, NÃO LEIA AS CRÍTICAS!

Mas tenha em mente que ao não ler a críticas e não querer saber a opinião verdadeira das pessoas, você vai estar vivendo em um mundo de fantasia onde você é perfeito.

E não existem escritores que não erram. Como eu disse ali em cima, mas vou reforçar aqui: o problema não é errar, o problema é não aprender com o erro.

E, então, como podemos nos blindar contra uma crítica negativa

Avaliando tudo isso, eu percebi que existem algumas coisinhas que a gente pode fazer para evitar que as críticas negativas apareçam.

Porque, sim, meu amigo escritor, elas vão aparecer e só nos resta tentar acertar o máximo possível.

1 Passe seu livro por leitura crítica e sensível

Esse é um passo essencial para um escritor independente porque como nós não contamos com editores, precisamos de alguém que dê pitacos sobre a estrutura e o ritmo da nossa obra.

A função do leitor crítico é de encontrar problemas no livro.

Sei que parece sádico, mas essa função vai resultar em o leitor crítico dizer se o livro precisaria de alguma mudança para passar a mensagem que você quer, se os personagens estão agindo conforme você disse que eles agiriam e se a história, como um todo, faz sentido.

Com o diagnóstico do leitor crítico, você vai poder melhorar ainda mais o seu livro, evitando as críticas negativas básicas de “não me prendeu” ou “não acontece nada na história”.

Já o trabalho do leitor sensível serve para que a sua história não ofenda minorias.

Por exemplo, se você tem personagens LGBTQIA+ ou pretos, o ideal é que você peça para que pessoas pretas ou pertencentes à sigla leiam seu livro para que você garanta que não foi homofóbico ou racista sem querer.

Nós sabemos como em uma sociedade com racismo e homofobia estrutural, várias pequenas agressões podem passar direto por nós, mesmo que estejamos nos desconstruindo.

Então, para não ofender ninguém de graça e ganhar uma crítica negativa por isso, contrate um leitor sensível.

2 Não peça para seus amigos serem leitores beta

Antes de lançar o Onirismos, eu pedi para um amigo e para o meu namorado lerem o livro e me darem opiniões.

E a minha sorte foi que eles não tiveram medo de me dizer a verdade porque o maior erro que podemos cometer é pedir para amigos serem leitores beta.

A leitura beta é aquela que deve ser feita quando o livro já está pronto para ser publicado. É como se fosse um teste, no qual você entrega o seu livro para serem lidos por pessoas que fazem parte do público-alvo.

Essas pessoas, então, dão suas opiniões como leitores. É diferente da leitura crítica e da sensível porque esse tipo não costuma dar muitos insights sobre a estrutura do livro, mas mais sobre como o leitor percebeu a história.

E o erro está em confiar essa tarefa importante, esse test-drive, a pessoas que vão ter medo de dizer que a história não é boa ou que não empolgou tanto quanto você queria.

Por isso, procure pessoas não próximas de você para serem leitores beta. Inclusive, você encontra serviços de leitores beta na internet.

Dessa maneira, existe a garantia de que a opinião não será viciada ou leve demais para você engolir.

3 Pense no seu leitor quando estiver escrevendo, não só em você

Uma verdade que o escritor precisa entender é que se você publicou um livro é porque você não escreveu para você mesmo. Escrever para você mesmo é deixar o livro na gaveta e ler de vez em quando, sem mostrar para o mundo.

Se você se deu ao trabalho de colocar o livro no KDP, imprimir cópias e vender é porque você quer que as pessoas leiam. Então, por que não escrever pensando no que o leitor vai querer (ou precisa) ler?

Uma das primeiras lições que aprendemos em cursos de escrita é que precisamos apenas escrever, sem pensar em quem vai ler.

E eu concordo em partes porque essa lição vem no sentido de que a gente não pode ter vergonha de escrever, mas não de que não precisamos pensar no leitor vai achar.

Por isso, não seja egoísta e coloque qualquer coisa no livro porque é o que você quer ler. Você precisa estruturar seu livro e criar situações que façam sentido para o leitor.

Isso porque, como foi você quem criou a história, tudo faz sentido dentro da sua cabeça, você conhece o mundo que você criou de cabo a rabo, mas o leitor não. Para ele, vai ser apenas uma bagunça.

Então, pense no que vai passar pela cabeça do leitor quando ele ler determinado parágrafo, pense no que ele vai entender quando o capítulo X terminar e como ele vai se sentir quando você matar personagem Y.

Pense no leitor, não só em você.

4 Desmembre o seu livro para entender como ele funciona

Seguindo a mesma ideia do item anterior, você precisa entender se o seu livro funciona ou não, e como ele funciona.

Enquanto escritores independentes, a gente precisa criar um senso crítico muito grande com a nossa própria obra. A gente não pode achar que tudo está perfeito.

Por isso, o ideal é que você siga algumas etapas ao escrever. Primeiro, você planeja a história, depois começa a escrever sem se preocupar com a edição.

Porém, depois que a etapa de edição começar, você precisa tirar o chapéu de escritor e colocar o de editor.

Você vai entender como cada capítulo funciona dentro da história e como ela está avançando (aliás, se ela está avançando).

Você vai precisar entender como os seus personagens estão agindo, se eles aprenderam a lição que precisavam e qual é a mensagem que a sua história está passando.

Você é o criador desse mundo, então precisa entender o que sua história significa. Automaticamente, você vai descobrir o que sua história vai passar para o seu leitor.

Fazendo isso, vai ser muito mais fácil evitar erros de tramas, incoerências nos personagens e as temidas críticas ruins.

Lembrando que independente de você usar o chapéu do editor, a leitura crítica ainda é necessária porque a sua visão do livro vai estar viciada.

E para ter uma opinião sem viés, você precisa de alguém de fora.

5 Tome cuidado com o hype que você cria durante o processo de escrita

Esse é um cuidado que eu própria estou tomando neste momento.

Eu estou escrevendo um livro de suspense que se passa nos anos 1960 no interior do Rio Grande do Sul e lida com questões como feminismo, homofobia e corrupção.

E o maior cuidado que eu estou tendo é de manejar a expectativa ao redor da história.

Eu compartilho o meu processo de escrita com meus seguidores no Instagram e falo sobre o processo de pesquisa também, mas a todo momento deixo claro que este será o meu primeiro romance e que os leitores não devem esperar um vencedor do Nobel.

Por isso, a lição aqui é não prometer mais do que você vai poder entregar.

Não prometa um livro que vai tratar perfeitamente sobre o assunto X se você não tem autoridade sobre o assunto X. Não diga que é uma história para o público Y se os temas do seu livro se encaixam mais com o público Z. E por aí vai.

Tenha em mente que a maneira como você vende um livro para o leitor vai fazendo as expectativas dele aumentarem e, quando as expectativas estão muito altas, a decepção vem com muita facilidade.

6 Esteja ciente de quais são as expectativas ao seu redor

Para o caso da autora citada no início deste artigo, esse fator aqui é o que mais causa problemas porque (correndo o risco de dizer quem é) a autora citada é mentora de escrita.

Ou seja, em teoria, ela deveria saber muito bem como construir uma história, estruturar acontecimentos e manejar o ritmo de uma história. Porém, entre as críticas do livro, essas são as mais citadas.

Por isso, tente estar ciente das expectativas ao seu redor para não decepcionar as pessoas e se decepcionar.

Por exemplo, se você é um mentor ou professor de escrita, saiba que as expectativas de a sua história ser quase perfeita serão enormes porque você deveria aplicar o que ensina.

Se você já tem um livro publicado que foi indicado a um prêmio, as expectativas estarão mais altas ainda.

A questão aqui não é responder às expectativas porque isso é quase impossível, mas estar ciente delas para quando receber uma crítica saber que essas expectativas podem ser parte integrante da opinião do leitor.

Em resumo…

Existem diversas maneiras de lidar com uma crítica negativa, mas refutar e ignorar não pode ser uma delas. Por isso, preste atenção em cada passo do seu processo de escrita e coloque-se no lugar do leitor. Tentar escrever o melhor livro possível e aprender com seus erros é a receita do sucesso.

 



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