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Uma breve análise sobre todas as protagonistas de Jane Austen

Uma breve análise sobre todas as protagonistas de Jane Austen

As protagonistas de Jane Austen são icônicas. Elas são personagens com mais de duzentos anos, mas que sempre nos mostram algo novo a cada leitura.

Mesmo que não no sentido estrito da palavra, eu acredito que Jane Austen foi feminista, e isso se reflete em suas protagonistas.

A autora era uma mulher um pouco subversiva na literatura que escrevia, isso porque ela sempre fez suas personagens terminarem suas histórias da maneira que queriam.

As protagonistas de Jane Austen fazem escolhas, mesmo que tímidas, são fortes e representam jornadas de maturidade e crescimento.

A biografia da autora é um pouco nebulosa, não sabemos direito quem era Jane Austen e quais eram seus desejos mais profundos.

Porém, podemos entender através de suas protagonistas que ela não foi uma mulher de se contentar com pouco ou de aceitar o que era oferecido sem questionamentos.

Tanto que ela não se casou, isso em uma época em que o máximo de conquistas que uma mulher teria era se casar com um bom partido. Algo que a autora transpôs para suas obras.

Muitos podem dizer que a obra de Jane Austen não era feminista no sentido em que suas protagonistas têm como objetivo apenas o casamento.

Porém, dentro de uma sociedade restrita onde o casamento e uma vida conjugal feliz era o máximo que uma mulher podia querer, bater o pé e escolher com quem ela iria se casar, já era um grande sinal de rebeldia e independência.

Analisando as protagonistas de Jane Austen

No leque de personagens da autora, não podemos dizer que uma é muito parecida com a outra. As protagonistas de Jane Austen têm características diferentes e backgrounds diferentes.

O que as une é a felicidade em forma do casamento com o amor verdadeiro e uma jornada de autoconhecimento, na maior parte das vezes.

Elinor Dashwood

Uma das protagonistas de Razão e Sensibilidade, Elinor tem 19 anos e não se casou ainda.

Ela é sensata e racional, representando a razão do título do livro, e por isso é ela quem toma conta da família. O pai dela, o Sr. Dashwood, recém faleceu e o filho de seu primeiro casamento herdou tudo.

As Dashwood ficaram à míngua e, em virtude do luto da mãe, é Elinor quem resolve todas as questões práticas. Ela tem poder diante à família porque ela é quem tem poder de decisão, exatamente por ser sensata como é.

Independente disso, o poder que Elinor tem diante da família não sobe à cabeça. Ela tem poder sobre o dinheiro e a maior parte das decisões financeiras da casa, mas ela só pensa no bem.

Quando descobre que o homem que ama está noivo de uma jovem que se tornou sua amiga, Elinor engole em seco, decidindo que está tudo bem e que seu amor precisa ser feliz onde ele decidir estar.

E essa decisão é interessante porque é um sinal da personalidade de Elinor, ao mesmo tempo em que a mesma situação é vista como um sinal de maturidade na trama de Emma.

Enquanto Emma muda e amadurece, Elinor não precisa, ela já é madura e essa decisão é um sinal de sua sensatez.

emma thompson como elinor dashwood

Marianne Dashwood

Já Marianne Dashwood, irmã mais nova da Elinor e segunda protagonista de Razão e Sensibilidade, pode ser descrita como a sensibilidade do título.

Isso porque ela ainda é uma menina muito jovem, de 15 ou 16 anos, bastante intensa, espevitada e pronta para se envolver sem pensar duas vezes.

Marianne é uma das mais diferentes entre as protagonistas de Jane Austen porque ela é levada pelos instintos e pelos sentidos constantemente. E isso pode ser bem perigoso, como vimos acontecer em uma trama parecida com Lydia, em Orgulho e Preconceito.

Como consequência, no final do livro, Marianne é levada para uma situação que se parece com um castigo por ser como é. Inclusive, a própria personagem dá a entender que é um castigo.

Ela fica doente depois de uma confusão envolvendo o homem por quem está apaixonada, Willoughby, e é resgatada dessa doença pelo Coronel Brandon. O final de Marianne é ela se casar com um homem muito mais velho do que ela e sossegar.

Talvez seja uma trama que termine como um alerta para as mocinhas da época.

kate winslet como marianne dashwood

Elizabeth Bennet

Elizabeth Bennet é a protagonista de Orgulho e Preconceito e uma das personagens mais bem trabalhadas da autora. Isso porque ela é muito humana, cheia de falhas e defeitos, mas também de qualidades e momentos memoráveis.

É uma das protagonistas de Jane Austen com quem mais conseguimos nos identificar por causa disso.

Lizzie é culta, gosta muito de ler, e é percebida como diferente das outras jovens da sociedade porque sua família caminha de um jeito diferente.

O Sr. Bennet é um rebelde, de certa forma, e a Sra. Bennet é bastante caipira. O que dá um dia a dia diferenciado para as cinco filhas do casal, onde elas são livres para viver e perseguir o que mais gostam. Seja música, livros, bailes ou o amor.

Além desse background, a Lizzie também é muito parecida com o pai.

A grande questão do livro é o orgulho e o preconceito na relação da Lizzie com o Darcy e como um aprende muito com o outro, mesmo que não consiga perceber. Além de de aprender com o Darcy, a Lizzie também aprende com as mulheres ao seu redor, com a Charlotte, Jane, Lydia e até sua mãe.

keira knightley como lizzie bennet

Fanny Price

Fanny é a protagonista de Mansfield Park, o livro que eu menos gosto da Jane Austen. Porém, eu preciso dizer que ela é uma das personagens mais interessantes da obra da autora.

Isso porque a personagem é moldada pelo passado e pela maneira como as pessoas a tratam. Temos que considerar que Fanny foi tirada de casa aos 10 anos e levada pela tia para ser dama de companhia das primas. E essa tia, o tempo todo, reforçava para Fanny a posição dela na casa. O que resultou em uma moça submissa, quieta e resiliente.

Enquanto as outras protagonistas de Jane Austen conseguem ter voz, a única negativa de Fanny vem quando ela já não aguenta mais e está sofrendo o risco de viver na miséria novamente. E mesmo pequena, é uma forte atitude vinda dela.

billie piper como fanny price

Emma Woodhouse

A protagonista de Emma é, possivelmente, a personagem mais independente que a Jane Austen escreveu.

Isso porque ela tem como ser independente. Emma tem muito dinheiro, o pai dela é um senhor de idade e alguém que não consegue mandar nela, e Emma é adorada e idolatrada pelas pessoas da cidade porque é rica e bonita.

Emma é uma personagem que Jane Austen criou dizendo que ninguém iria gostar, porém o leitor aprende a gostar da Emma ao perceber sua jornada de mudança, maturidade e crescimento.

A protagonista passa por uma grande jornada de autoconhecimento e reconhecimento de privilégios, mostrando seu maior sinal de maturidade quando dá um passo atrás ao achar que o Sr. Knightley, o homem que ela descobre amar, está apaixonado por sua amiga, Harriet.

Com essa atitude, Emma para de se colocar em primeiro lugar e aprende a valorizar os outros. O que é um fator que aproxima as pessoas da história de Emma e faz ela não ser a personagem mais detestável da autora.

anya taylor joy como emma woodhouse

Catherine Morland

A protagonista de A Abadia de Northanger regula de idade com Marianne, porém diferente da heroína intensa e apaixonada, Catherine é permeada pela inocência.

Tudo o que a personagem sabe da vida, ela aprendeu em livros, o que a torna muito sonhadora e imaginativa. Isso a ponto de criar histórias mirabolantes sobre o que acontece ao seu redor, resultando em confusão e mal entendidos.

Diferente das jornadas das outras personagens, o crescimento de Catherine é pouco visível. Isso porque ela não é uma protagonista ativa, ela é passiva. Catherine deixa as coisas acontecerem ao redor dela sem interferir, inclusive seu casamento com o Sr. Tilney.

Annie Elliot

Chegando ao último livro lançado pela autora, já de maneira póstuma, Annie Elliot é a protagonista de Persuasão.

Anne é a mais velha das protagonistas de Jane Austen, ela tem 27 anos e nós sabemos, através da narrativa, que a era de ouro da personagem já passou. Anne é considerada um partido não muito bom porque está mais velha e não tem mais dinheiro, e isso a faz perder as esperanças.

O que muda quando seu amor perdido, Capitão Wentworth volta para a cidade.

É interessante acompanhar como, assim como Fanny, o meio moldou Anne para ser quieta e submissa. A irmã mais velha é quem fala mais alto e a mais nova é quem ganha a atenção por estar sempre doente. E isso não deixa Anne brilhar, mesmo que, quando se afasta desse ambiente, ela se torne independente e requisitada.

Durante sua jornada, Anne redescobre sua força interior e consegue reencontrar o amor.

sally hawkins como anne elliot

E para concluir…

Uma das coisas mais interessantes na obra de Jane Austen é a autora ter conseguido criar tantas protagonistas diferentes e com histórias diferentes que podem parecer iguais para quem não leu.

E isso pode ser que venha de traços da própria autora. Nós escrevemos sobre o que sabemos e sobre o que é importante para nós, e encontrar o amor verdadeiro e fazer a escolha de viver esse amor talvez fosse o mais importante para ela.

É possível que as protagonistas de Jane Austen contenham muito mais sobre ela do que imaginamos.

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