Por que não consegui assistir Bridgerton (e nem ler romance de época)

Por que não consegui assistir Bridgerton (e nem consigo gostar de romance de época)

A listinha de problemas que eu tenho com o gênero romance de época começou a aparecer na minha cabeça quando eu tentei assistir ao primeiro episódio de Bridgerton no final de semana.

A série da Netflix estreou no dia 25/12 e eu não fiquei de fora da lista dos grupos de anúncios da série porque, teoricamente, ela tem tudo o que eu, enquanto leitora e espectadora, gosto. Ela se passa em 1813, tem os belos figurinos do período da regência, tem um ar de Jane Austen na ideia e é um romance.

Romance, apesar de não ser meu gênero literário favorito, é o que eu mais gosto de ver na TV.

cena da série bridgerton

Porém, minha experiência com Bridgerton foi muito estranha. Meu primeiro contato com a série foi o trailer da Netflix e uma das primeiras cenas já me deixou irritada: a mãe de uma das meninas aperta o corpete dela dizendo que ela tem que ficar com a cintura fininha.

Algumas considerações sobre a moda do início do século XIX

A moda imperial, ou do período da regência, é muito famosa por ser simples em silhueta, enfeites e tecidos. A silhueta é como a de uma estátua grega, reta e elegante, longa e delgada. A cintura dos vestidos subiu bastante nesse período, resultando em cinturas logo abaixo dos seios.

Nesse mesmo período, o corpete de transição apareceu. Esse tipo de roupa de baixo era feita de algumas camadas de linho ou algodão e servia unicamente para dar suporte aos seios e postura. O corpete do período não tinha barbatanas ou ilhóses de metal fortes o suficiente para “apertar”.

cena errônea sobre uso do corpete de transição no século XIX

Ou seja, não tinha como uma mãe apertar um corpete de transição para afinar a cintura da filha porque o corpete da época não oferecia essa funcionalidade e, com a cintura dos vestidos na altura em que estava, que diferença faria ser acinturada ou não?

Além disso, as meninas estavam usando o corpete diretamente na pele, sem uma combinação por baixo. Algo que não acontecia.

Enfim, tudo isso para dizer que a série já começou errado, mostrando algo que não existia e que apenas faz com que as pessoas continuem tendo preconceitos contra corpetes e espartilhos. Fora isso, eu também me vi rolando os olhos para a trama da primeira temporada.

Algumas roladas de olhos para a primeira temporada de Bridgerton

Como apreciadora de filmes do gênero romance e comédia romântica, eu adoro um clichê. Eu adoro quando os protagonistas se odeiam e aprendem a se gostar, eu adoro um amor por conveniência, eu adoro uma mocinha que aprende que ser workaholic não é bom e se deixa se apaixonar pelo melhor amigo.

Porém, eu detestei que a trama principal de Bridgerton fosse um relacionamento por conveniência. E eu detestei isso porque um relacionamento por conveniência em 1813 é muito arriscado para a mulher. Ainda mais porque, pelo que eu conheço do gênero romance de época, o casal pode acabar tendo relações sexuais em determinado momento. O que é muito mais arriscado para a mulher.

O século XIX, especialmente no início, não foi um período amigável para mulheres que se envolviam com homens sem que eles fossem seus maridos ou prometidos. Uma mulher que ficasse sozinha com um homem corria o sério risco de nunca mais conseguir um pretendente porque ficaria falada na cidade.

Ser mulher e ter um romance no século XIX era extremamente complicado e a gente consegue perceber isso muito bem em histórias escritas na época. Como, por exemplo, todos os livros da Jane Austen. As protagonistas da autora precisaram passar por muitos obstáculos para conseguir ficar com o homem que amavam.

E tudo isso, seguindo as regras sociais.

Algumas considerações sobre romance no século XIX

Eu sou muito fã de história escritas no século XIX, não apenas porque elas têm aquele ar aristocrático que as coisas do passado trazem, mas porque é um mundo completamente diferente. O mundo das heroínas de Jane Austen é cheio de obstáculos e regras que o nosso não tem.

E ver que elas conseguem encontrar o amor, mesmo com tudo isso envolvido, é muito legal.

Isso porque são desafios diferentes dos desafios das mocinhas de hoje. Comparar Orgulho e Preconceito com alguma adaptação moderna da obra, por exemplo, nos mostra exatamente a importância desses obstáculos.

cena do filme orgulho e preconceito de 2005

O grande problema de Darcy com o relacionamento de Jane e Bingley na obra original é que a família Bennet não é tradicional como a dele e não se comporta de maneira discreta. Fora isso, existe a diferença social entre eles. O casamento seria muito mais vantajoso para Jane. Além disso, ela é tímida e se relaciona com Bingley como se relaciona com todos os outros homens que conhece, de maneira discreta.

Em The Lizzie Bennet Diaries, por exemplo, a questão se tornou muito mais de classe do que qualquer outra coisa (dinheiro ou interesse). Isso porque a relação entre Jane e Bingley fica muito mais explícita como um romance. Além disso, Jane trabalha na série e tem seu próprio dinheiro.

No século XXI, eles podem se beijar, podem dormir juntos e podem conversar abertamente. Nesse ponto, Bingley não tem dúvidas de que Jane gosta dele.  Porém, no século XIX, se uma mulher fizesse isso, ela ficaria mal falada, seria rejeitada pelo pretendente atual e, provavelmente, nunca mais encontraria outro.

cena da websérie lizzie bennet diaries

E para mim, essa é a graça de romances que se passam em tempos antigos: ver como as pessoas na época, envoltas em seus desafios típicos da época, resolvem os problemas da época com as soluções da época. É por isso que eu não consigo aceitar um romance que se passa no século XIX ter todas as características comportamentais do século XXI.

Chegando até aqui no texto, acho que já deu para notar que os meus problemas com romance de época se resumem em um conceito: pessoas de séculos passados se comportando como pessoas do nosso século. E a grande verdade é que não tem nada de errado com isso, até porque o público que consome esse gênero é bem grande.

Porém, não funciona para mim e acho que nunca vai funcionar.

Alguns comentários sobre minha primeira (e única) leitura de romance de época

Bridgerton não foi o meu primeiro contato com romance de época. Em março deste ano, eu li Livre para Recomeçar da Paola Aleksandra. Este é o segundo livro da autora e conta a história de Anastácia, uma mulher que vive em meados de 1870 e começa a reconstruir sua vida depois que o marido abusivo morre.

livre para recomeçar da paola aleksandra

O livro tem uma trama bastante feminista e eu gostei de ver a protagonista se libertando das amarras que o marido colocou nela. Mas os mesmos problemas que tive com Bridgerton apareceram ali. A protagonista não tinha pudor nenhum perto dos homens, ela usava pantalonas, blusa de decote canoa feitos em seda e sapatilhas para andar na rua em meio às pessoas e o protagonista ficou sem camisa em diversas ocasiões.

Independente de o livro se passar no Brasil e estar próximo da virada do século, nenhum dos comportamentos sociais da protagonista fazia sentido com a época. O tema da libertação é importante e estava presente em todas as coisas que citei no último parágrafo, mas, na minha cabeça, não faz sentido com a época escolhida.

Existiam outras maneiras de uma mulher se rebelar na época, existiam outras maneiras de ela namorar, existiam outras maneiras de fazer tudo. Porém, o meu maior problema com o romance de época, seja Bridgerton ou qualquer outra obra do gênero, é que os personagens tomam atitudes do século XXI estando inseridos em épocas passadas.

cena da série bridgerton

E isso é extremamente incoerente. Mas talvez seja exatamente por isso que esse tipo de história atrai as tantas pessoas que atraem. São personagens com a cabeça de hoje enfrentando os problemas da época, que foram criados por pessoas com outras cabeças.

Talvez o maior atrativo do romance de época seja se imaginar vivendo em uma época de reis e rainhas, de chás da tarde e vestidos longos sem ter que criar a mentalidade da época e se sujeitar às regras da época.

 



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