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Por que gostamos tanto de acompanhar histórias policiais?

Por que gostamos tanto de acompanhar histórias policiais?

As histórias policiais são um dos gêneros literários mais famosos e com mais fãs espalhados pelo mundo.

Seus personagens são icônicos e muitos deles, como Sherlock Holmes e Dr. Watson, são lembrados com carinho por muitos leitores e espectadores.

Nesse ínterim, ogênero também conseguiu vencer barreiras, estendendo-se para o cinema e televisão e subdividindo-se em diversos subgêneros, como o noir e o suspense.

Mas por que gostamos tanto de acompanhar histórias policiais?

Folhetins: as novelas do século XIX

A primeira das razões é o formato em que elas eram publicadas no século XIX, logo no início da estruturação e popularização do gênero: o folhetim.

Os folhetins eram histórias publicadas em jornais e revistas capítulo por capítulo, conservando um determinado público e deixando a imaginação do leitor em ardor pelo que aconteceria em seguida.

Era comum o uso de cliffhangers ao final de cada um desses capítulos, ganchos que fariam com o que o leitor não conseguisse não ler o próximo.

Além disso, os folhetins faziam parte dos jornais da época como um suplemento, o que aumentou muito o público das histórias.

Podemos comparar os folhetins com as telenovelas atuais no quesito apelo popular e narrativas que respondem ao público.

Inclusive, grandes obras da literatura mundial, que hoje são clássicos, foram publicados pela primeira vez como folhetins.

É graças ao formato que figuras como Sir Arthur Conan Doyle e Edgar Allan Poe ficaram conhecidas, ajudando a consolidar o romance policial como um gênero literário.

Exemplo de folhetim de 1916. Fonte: blog da Biblioteca Nacional

A dualidade moral como tema

P.D. James, a dama do romance policial inglês, acredita que o fator que tornou as histórias policiais populares é a dualidade moral.

Em seu livro Segredos do Romance Policial, ela diz que grande parte das histórias de detetive segue a receita do romance inglês (sendo os autores ingleses grandes partidários da lei e defensores da policia), então a dualidade moral é sempre uma representação forte.

Nela, o crime, a violência e o caos são sempre uma grande aberração e deve ser aniquilada pela figura que representa a ordem, nesse caso o detetive.

É uma guerra de astúcia e de racionalidade, o clássico bem contra o mal.

P.D. James ainda diz que gostar de histórias policiais está atrelado ao nosso psicológico no que se refere ao senso de justiça e empatia humana.

É muito raro um romance desse gênero que não tenha o assassinato como crime principal, pois, por mais cruel que pareça, a autora diz que é muito mais interessante ler sobre um assassino do que sobre qualquer trama facilmente reparável.

O assassinato é um crime sem reparação, não é algo passível de reversão. Um assassinato, ainda mais por razões que não estejam claras, choca e provoca a empatia das pessoas.

Sherlock Holmes e Jim Moriarty na adaptação da obra para a BBC.

O mistério e a solução do crime

A terceira razão para gostarmos tanto de histórias policiais está no mistério em si e, enfim, na resolução do crime.

Para P.D. James, a grande parte da atração do público pelo gênero está na satisfação de solucionar o mistério proposto e na recompensa de descobrir a dissolução de toda a trama.

Ou seja, quem cometeu o crime e seus motivos.

Frequentemente, as narrativas policiais têm seu ápice em uma cena bastante emblemática: a prisão do culpado. Aliás, de acordo com P.D. James, levar o criminoso à justiça é o maior sucesso da história policial.

A sensação de justiça sendo feita pode ser classificada, em suma, como um fator que tranquiliza o nosso senso de justiça e parece aliviar a tensão causada pelo crime.

Umberto Eco disse que nós lemos romances porque eles nos dão uma sensação confortável de viver num mundo onde a noção de verdade é indiscutível, embora o mundo real seja um lugar mais traiçoeiro.

Por isso, sentimos uma sensação de frustração quando bem não vence o mal em certos livros e filmes, independente de serem narrativas policiais ou não.

Nós prezamos pela justiça na ficção porque ela nem sempre acontece na vida real. É recompensador, na verdade.

Este artigo é parte de um estudo sobre literatura policial e a representação de museus no gênero. Para conferir o conteúdo completo, acesse este link.

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