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cenas do filme o labirinto do fauno

O Labirinto do Fauno: confira 5 impressões sobre a leitura

Em julho desse ano, a maravilhosa obra prima de Guillermo del Toro, O Labirinto do Fauno, foi transformado em livro.

Pelas mãos de Cornelia Funke, autora de Coração de Tinta, a história de fantasia ganhou uma novelização e alguns contos extras.

A história original de Del Toro é um filme de fantasia que subverte qualquer expectativa do gênero.

Lançado em 2006, a trama segue a jovem Ophelia pela Espanha fascista dos anos 40 em meio a aventuras fantásticas e desventuras do mundo real.

No epílogo do livro, Cornelia conta que Guillermo entregou para ela a missão de transformar a história em livro, mas que esse foi um desafio e tanto.

A história do filme é cheia de magia e criaturas fantásticas praticamente indescritíveis, e para adicionar seu próprio sabor à história, Cornelia resolveu aprofundar a mitologia do livro escrevendo 10 contos inspirados pelo universo.

A história do livro é exatamente igual à contada no filme.

A única diferença é que o leitor consegue entender melhor a motivação dos personagens através da narrativa onisciente. Além disso, todos os contos acrescentados por Cornelia são familiares à história.

Aproveitando o lançamento do livro, hoje eu trago alguns dos aspectos mais interessantes sobre a trama original e sobre a narrativa do livro em si.

Uma trama carregada por mulheres

Um dos aspectos mais interessantes sobre O Labirinto do Fauno é que as personagens que carregam a história são personagens femininas.

Temos exemplos bem diferentes de mulheres, com passados diferentes e motivações diferentes, porém todas têm uma força peculiar.

Apesar de ser apenas uma criança, a primeira mulher que conhecemos é a protagonista, Ophelia.

Órfã de pai, ela acredita em uma versão mais bonita do mundo, devora livros e questiona as escolhas da mãe o tempo inteiro porque não entende as necessidades do mundo adulto.

A mãe de Ophelia é Carmen, uma mulher na casa dos trinta anos e que está grávida de um homem cruel e vilão da história, Capitão Vidal.

Viúva, pobre, sozinha e com uma filha para criar, Carmen faz escolhas que a deixam segura na sociedade dos anos 40, embora não sejam escolhas felizes.

A terceira mulher essencial nessa trama é Mercedes, governanta da casa do Capitão Vidal.

Ela tem um papel muito importante na trama porque é um porto seguro para Ophelia e um canal direto com o grupo de rebeldes que luta pela liberdade do povo na Espanha fascista.

Mulher contra mulher

Aos olhos de Ophelia, e dos leitores, Mercedes e Carmen são contrapartes. Uma é o oposto da outra, o que torna muito fácil colocá-las em oposição.

Porém, elas são mulheres muito diferentes e é justamente o passado e a situação social de cada uma que as faz ser o que são.

Mercedes é uma rebelde por natureza, vemos isso porque conhecemos seu irmão no decorrer da história.

Para ela, é natural se opor àquilo que é considerado norma, por isso se comporta como uma mulher independente. Já para Carmen, entretanto, estar segura sob a proteção de um homem é o ideal.

No decorrer do livro se torna muito fácil para o leitor subestimar Carmen e favoritar Mercedes porque é exatamente isso que Ophelia faz. Porém, podemos julgar as escolhas de Carmen?

Afinal, Mercedes vem de outro contexto. Ophelia é apenas uma criança. Nenhuma das duas entende as escolhas que Carmen precisou fazer.

Uma trama com raízes na mitologia pagã

Guillermo del Toro nunca chegou a confirmar ou negar as teorias sobre os significados da trama, mas é impossível negar que O Labirinto do Fauno tem raízes na mitologia pagã celta.

Temos um fauno na história, uma ligação clara com a lua, a natureza e a vida da floresta como um valor importante e aquilo que pode ser uma metáfora sobre a relação de morte e vida entre a deusa mãe e o deus de chifres.

O fauno é a representação do deus de chifres e do espírito da floresta, conhecido em outras mitologias como Pã, Dionísio, Cernunnos, etc. Inclusive, o próprio Fauno se referencia como Cernunnos na narrativa do livro.

O papel da mulher e da lua

Nós também temos o papel dado à lua na história. Na mitologia celta pagã, a lua é uma extensão da deusa mãe e suas fases estão ligadas diretamente às fases da vida de uma mulher e, também, com a menstruação.

O ciclo de uma lua dura 28 dias, assim como o ciclo menstrual da mulher.

A lua crescente é a donzela, a lua cheia é a mãe e a lua minguante é a idosa, sendo a lua nova uma face obscura feminina, o lado ruim da mulher.

Na história, o Fauno diz que Ophelia é a filha da lua porque ela tem uma marca de nascença em forma de lua.

São as fases da lua que regem sua história, também. O fauno diz a ela que o prazo para voltar ao Reino Subterrâneo está chegando ao fim porque a lua está quase cheia, referenciando também Carmen.

A única mulher na história que é uma mãe é uma personificação da deusa mãe.

As estações do ano

O ano se divide entre os reinados da deusa e do deus na mitologia pagã. As estações do ano são um acordo de domínio entre eles.

A deusa rege o verão e a primavera, períodos em que a terra está quente e fértil. Enquanto o deus de chifres rege o outono e o inverno, períodos secos, frios e difíceis para a humanidade.

O trato entre eles é que enquanto um deles reina, o outro está morto. E assim como a humanidade, os deuses também nascem, envelhecem e morrem nesse período.

O solstício de inverno e de verão é o onde um deles morre e o outro nasce.

Quando o solstício de inverno está chegando, a deusa mãe começa a enfraquecer. Ela morre ao chegar o solstício, entregando o reinado ao deus de chifres, que por sua vez, morre ao chegar o solstício de verão.

E essa é uma representação trazida em O Labirinto do Fauno através de Carmen e do Fauno. Carmen está morrendo à medida que sua gravidez avança, se tornando cada vez mais fraca até que sucumbe.

Enquanto isso, vemos o fauno ficar cada vez mais jovem e forte na floresta. No dia da morte de Carmen, é quando vemos o Fauno em seu ápice.

Confira neste artigo uma análise mais aprofundada do assunto.

Uma trama que funciona melhor na tela

A trama de O Labirinto do Fauno tem consistência, subverte as expectativas dos contos de fadas, fala sobre política e magia, mas não é uma história que funciona em qualquer mídia.

Por ser uma história criada para as telas antes de se tornar um livro, se perde muito da magia das criaturas e cenários na novelização.

A literatura brinca com a nossa imaginação, isso é verdade, mas quando comparamos as duas mídias, o filme sempre terá um apelo muito mais forte, especialmente porque o ser humano é essencialmente visual.

As criaturas da história são muito mais mágicas quando vistas, o ambiente nos dá o tom com muito mais efetividade na tela e a trilha sonora carrega a tristeza e a complexidade das cenas mais difíceis com muito mais eficácia do que as páginas do livro.

Essa não é uma questão de escrita porque a escrita da Cornelia é formidável. Porém, ver as criaturas se mexendo na tela entregam muito mais magia do que ler essas mesmas criaturas, por exemplo.

Uma trama obscura e para adultos

Apesar de trazer uma temática fantástica e uma protagonista criança, o Labirinto do Fauno não é uma história infantil. A trama é, de maneira geral, bastante obscura e cruel.

E não apenas quando fala sobre o fascismo na Espanha, mas inclusive em sua trama fantástica.

Na trama política, que acontece no mundo real, temos o retrato da Espanha pós-guerra civil tomada pelo fascismo.

Nosso vilão é um capitão que está no interior do país caçando grupos rebeldes que estão agindo contra o sistema. E enquanto esse vilão age, vemos crueldades sem tamanho acontecer.

Vidal assassina homens de maneira brutal, tortura criminosos, assusta todos que estão ao seu alcance e, no final da história, mata Ophelia sem remorso algum.

O pior de tudo isso é que tanto leitor quanto espectador não são poupados do sangue, do sofrimento e da violência.

Nós vemos e lemos quando Vidal afunda o rosto de um homem com uma garrafa, quando mata o médico pelas costas e quando atira em uma criança, por exemplo.

E o mundo fantástico da história, subvertendo o gênero, não é colorido, agradável e aconchegante também.

O Reino Subterrâneo

As missões de Ophelia são realizadas no escuro, em ambientes insalubres, envolto em riscos e que podem levá-la à morte todas as vezes.

Essa menina não sabe se pode confiar nas pessoas à sua volta ou se o que o Fauno promete existe de verdade. A própria escolha que ela precisa fazer em sua última tarefa é sangrenta e desumana.

Ophelia está fugindo do capitão com seu irmão nos braços e o Fauno pede que ela sacrifique a criança, já que a única maneira de voltar ao mundo subterrâneo é derramar sangue inocente.

Essa criança precisa escolher entre a morte do irmão e a sua própria para voltar ao Reino Subterrâneo, que, inclusive, é assustador à sua maneira.

Quando pensamos em mundos mágicos, pensamos em florestas ensolaradas e nunca em lugares embaixo da terra. Nem mesmo o lugar encantado de O Labirinto do Fauno parece um lugar encantado.

Uma trama que pode ser um escape da protagonista

É bastante anticlimático quando descobrimos que um mundo fantástico é apenas imaginação do protagonista.

Mas existem chances de a realidade de Ophelia ser tão severa que ela tenha criado uma alternativa onde era uma princesa perdida.

Ophelia é uma criança, perdeu seu pai há apenas um ano, vê sua mãe ser diminuída a apenas um útero pelo pai de seu irmão, acompanha o definhar dessa mulher e, definitivamente, não quer ser levada para o interior e viver com o Capitão Vidal.

Ela gosta de livros e essa característica e acentuada diversas vezes no início da história, dando a entender que ela poderia inventar uma trama como a que vive em O Labirinto do Fauno.

Existem algumas sustentações para essa teoria nas tarefas que Ophelia precisa cumprir.

As tarefas como metáforas

Na primeira tarefa, ela enfrenta um sapo que está sugando a vida de uma árvore importante para a floresta.

A árvore tem um formato claro de útero, está fraca e dentro dela vive uma criatura saudável e gorda, que se alimenta dos nutrientes da árvore.

Ophelia poderia entender a fraqueza de sua mãe durante a gravidez como essa cena. O irmão é um parasita que está fazendo sua mãe ficar doente, ela mesma diz isso durante a história.

Ophelia não se sente à vontade com o irmão no início da trama, portanto, o sapo sugando a vida da árvore pode vir dessa percepção.

Durante a segunda tarefa, Ophelia precisa enfrentar o homem pálido e a curiosidade dessa cena é que a mesa de jantar da criatura espelha a mesa de jantar do Capitão Vidal.

Ambos os monstros devoradores de criancinhas estão sentados na ponta da mesa com um jantar tentador à frente. A Espanha vivia o racionamento de alimentos na época, mas o capitão serve boa comida.

Por fim, a última tarefa é realizada na noite em que Ophelia sabe que se não fugir para o Reino Subterrâneo será morta nas mãos do capitão. Essa última tarefa é sacrificar sangue inocente.

O fauno pede pelo irmão, mas Ophelia recusa, sendo ela o sacrifício depois que Vidal a assassina.

É o sangue dela que escorre para o labirinto e, como recompensa, ela volta ao reino de seus pais. Porém, o corpo físico de Ophelia morre… e será que o Reino Subterrâneo não seria apenas uma maneira que ela encontrou de lidar com a morte eminente também?

Extra: Contos inspirados no universo de O Labirinto do Fauno

Para trazer valor à sua novelização, Cornelia Funke escreveu dez contos originais inspirados no universo de O Labirinto do Fauno.

Os contos se passam antes do tempo da história que conhecemos, mas trazem alguns elementos familiares e a origem de algumas criaturas.

Temos a história de uma bruxa que convenceu uma das reencarnações da Princesa Moana a construir o labirinto como promessa de volta para casa.

Temos a origem do homem pálido, a história de um relojoeiro cruel, a morte da bruxa da história original e de como ela presenteou seus filhos com uma navalha e uma faca de cozinha.

E embora essa seja uma ideia interessante, a execução deixou a desejar. Os contos do passado não se conectam de verdade com a história original, são apenas ecos e alternativas para o que vemos acontecer com Ophelia.

E algumas delas, inclusive, correm o risco de estragar as impressões sobre os personagens originais.

Temos o Capitão Vidal e Mercedes como detentores da navalha e da faca de cozinha, dando a impressão de que eles teriam sido família em algum momento.

Temos um relojoeiro amaldiçoado, fazendo menção direta ao relógio que o Capitão ganhou de seu pai, o que poderia dar a ideia de que ele não era apenas mau, mas amaldiçoado.

Enfim, a ideia de colorir o livro com esses contos é ótima, porém, acredito que se fossem lançados como um livro original e em separado teriam um efeito muito melhor.

Mas apesar disso, a leitura de O Labirinto do Fauno foi interessante por nos trazer mais um olhar sobre a história mágica e trágica de Ophelia.

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