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A narrativa em cores de O Conto da Aia, de Margaret Atwood

A narrativa em cores de O Conto da Aia, de Margaret Atwood

A psicologia das cores diz que toda cor possui um significado cultura e sensorial. olhando para as cores na natureza, percebemos que todas elas têm um por quê.

Pensando nisso, trouxemos esse conceito para o universo de O Conto da Aia para analisar a narrativa em cores que a trama apresenta.

No contexto do livro revolucionário de Margaret Atwood, a sociedade é codificada por cores que são usadas não apenas como ferramenta para classificar seus indivíduos, mas também para dar avisos simbólicos de que fatias sociais existem por e para alguma razão.

A narrativa em cores de “O Conto da Aia”

O Conto da Aia é um livro escrito em 1985 pela canadense Margaret Atwood.

A história segue Offred, uma mulher que vive em uma sociedade teocrática na qual as mulheres férteis se tornaram organismos essenciais para manter as taxas de natalidade da população.

O grande trunfo do livro é a aura de terror e veracidade que a história traz.

A autora anunciou que se inspirou apenas em eventos reais para escrever a trama, ou seja, tudo o que acontece com as mulheres de Gilead já aconteceu com mulheres do nosso mundo em algum momento e lugar do passado.

Aias usam vermelho, a cor do sangue e do pecado

O vermelho é a cor do sangue, agressividade, poder e pecado.

Ao longo do tempo, seu significado mudou diversas vezes no âmbito social, ora surgindo como uma cor adorada, ora representando toda a negatividade da maldade, do sexo e da sedução.

Hoje, o vermelho se tornou sinônimo do proibido, do apaixonante e da teimosia. Ao mesmo tempo que seduz, o vermelho serve para despertar a atenção e proibir.

Ele é usado em casas de prostituição, representa os desejos sexuais. E de acordo com a cultura machista, mulheres usando vermelho não são inocentes. Segundo a cromoterapia, é a cor do impulso e do recomeço.

Para a Igreja Católica, o vermelho é o sangue de Cristo, a cor derramada pelos mártires e, também, a cor da caridade.

É uma cor de alerta e figura entre o simbolismo das forças de salvamento e proteção da vida cor de alerta e figura entre o simbolismo das forças de salvamento e proteção da vida (ambulância, bombeiros e polícia).

Um dos motivos mais fortes da narrativa em cores trazer as aias em vermelho é a proximidade com a cor do sangue menstrual.

Na maior parte dos casos, menstruação em dia significa fertilidade e as aias existem apenas para esse propósito na sociedade de Gilead.

Elas também são valiosas nessa dinâmica. Precisam ser reconhecidas de longe e nunca são perdidas de vista. Por isso, o vermelho como alerta e atenção é a cor perfeita.

Nesse contexto, elas também cumprem um papel de desejo e repulsa.

Esposas as odeiam, mas precisam delas. Comandantes agem diante da sociedade como se não as quisessem, mas alguns as tomam como amantes se elas permitirem.

Seu lado santo também é contemplado: elas são a salvação para o mundo, representam a esperança de bebês saudáveis e o sacrifício por um bem maior.

Esposas usam azul, a cor da nobreza e da frieza

O azul é a cor do céu, raramente presente como pigmento na natureza.

Ele é a cor preferida dos seres humanos. 45% das pessoas ao redor do mundo relatou que azul é sua cor preferida e os cientistas já encontraram 111 tons desse espectro.

O azul é a cor da nobreza, da frieza, da depressão e do sangue real.

É associado à política de direita, ao conservadorismo e à expressão que define uma linhagem real.

É a cor da criatividade, mas também é extremamente fria, a mais fria entre as cores frias e, em inglês, seu nome funciona como gíria para alguém que está se sentido muito triste e depressivo.

Na natureza, a cor azul foi apenas encontrada como pigmento em uma rara borboleta. Em todos os outros animais, ela é um efeito da captura da luz do sol, demonstrando sua raridade de reprodução.

Assim como o azul, as esposas de Gilead, na narrativa em cores da história, são nobres e adoradas, sua posição social é invejada e inclinada ao conservadorismo do governo.

E, embora adoradas, elas são distantes e frias, fechadas em sua própria tristeza e frustração, especialmente Serena Joy.

Martas usam verde, a cor dos cuidados e da tranquilidade

O verde é a cor da natureza, da origem natural das coisas e do estado mais primitivo. O verde é uma cor primária enquanto pigmento e secundária enquanto luz.

Representa o meio ambiente, os movimentos de proteção ao bem social e a cor do “siga em frente”.

Em tom mais claro é usado nos uniformes dos médicos e dos enfermeiros, emanando cuidado, proteção e dedicação. Porém, usando em tom mais escuro é associado com a inveja, a raiva, a depressão e a segurança.

Na idade média, o verde era comumente associado com o diabo e o azar. O verde é o fruto que ainda não está pronto e, também, considerada a cor mais neutra do espectro.

As Martas são as governantas de Gilead, mulheres inférteis que trabalham nas casas dos mais ricos, cozinhando, limpando e servindo aos moradores.

Elas usam o mesmo tom de verde claro dos uniformes dos enfermeiros, remetendo à ideia de cuidado, algo que é essencial à função de Marta, já que elas cuidam operacionalmente de todos os que vivem em suas casas.

Porém, o verde das Martas também pode ser o verde da inveja e da raiva: das esposas (por seu dinheiro e posição social), das aias (por sua fertilidade) e dos comandantes (por sua liberdade).

Tias usam marrom, a cor da firmeza e da tradição

Cor da terra, das raízes e do tronco da maioria das plantas, o marrom é o espectro que representa a firmeza, a tradição, a maturidade e a responsabilidade.

É a cor do aconchego e do conforto, mas também da resistência e da disciplina. Fisiologicamente, o marrom dá a sensação de sujeira e asfixia.

Segundo pesquisas, é a cor mais odiada pela população, especialmente pelas mulheres, que relatam sentir o marrom como uma cor chata.

Por outro lado, muitos homens têm o marrom como preferida. Eles a percebem por um espectro prático, digno de alguém que leva suas responsabilidades a sério.

As tias são as matronas do exército. Os comandantes as escolheram para preparar as aias para assumirem seus postos como reprodutoras em casas de comandantes nobres do governo.

São as tias que educam as aias, que cuidam delas e que se dedicam à Gilead, colocando sua paixão pela nova ordem acima de tudo.

Elas são figuras de autoridade e de respeito, que ganharam sua posição porque homens confiaram que elas seriam ótimas naquela função.

As mulheres não costumam ser muito afeiçoadas a elas, especialmente as aias. As tias são firmes e tradicionais, respeitam as regras e aplicam a disciplina.

São figuras que asfixiam, mas que também podem confortar, pois estão ali apenas para fazer com que suas meninas tenham sucesso.

Comandantes usam preto, a cor universal

O preto é a cor universal, a que transita através de todos os outros espectros e que combina com qualquer tom. Ele é a mais escura do leque de cores e costuma simbolizar respeito, isolamento, medo e solidão.

O preto é a noite, a escuridão, a ausência de luz. Esta é uma cor que absorve toda a luz que emana ao seu redor, todos os comprimentos de onda do espectro solar.

Contudo, quando estamos falando na cor-pigmento, o preto é a mistura de todas elas.

O preto indica nobreza, elegância, reverência e respeito. Seu nome tem origem na palavra latina pressus, que remete ao ato de compressão, de restringir.

No século XIV, então, clérigos, juízes e funcionários do governo em grande parte da Europa começaram a adotar o preto. No ocidente é a cor do luto, da morte, da violência, da força, da magia e da masculinidade.

Em Gilead, apenas os homens vestem preto. O exército, os serviçais e os comandantes se vestem com essa cor representando o que nenhuma mulher nesse universo tem: respeito, força, masculinidade e nobreza.

A origem do nome dessa cor nunca foi tão bem colocado como nesse contexto.

São os homens, nesse ínterim, que comandam a sociedade e restringem o vai e vem das mulheres, pressionando suas individualidades e comprimindo suas identidades.

Em suma, eles representam o governo e as mais altas castas sociais. Além disso, eles representam tudo o que as mulheres mais temem.

Aquilo que elas reverenciam e respeitam enquanto obrigadas.

Dessa maneira, os homens de Gilead engolem toda a luz ao seu redor, são as estrelas desse estado e a unidade social. Por fim, você já tinha percebido essas referências na narrativa em cores de O Conto da Aia?

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