Será que eu tenho maturidade para contar essa história?

Será que eu tenho maturidade para contar essa história?

Nesse momento eu estou escrevendo uma novela policial.

É a história de uma dona de casa que começa a investigar o assassinato de uma mulher em uma cidade de interior porque a polícia não consegue investigar.

A história se passa no meio da ditadura militar que o Brasil viveu e os temas giram em torno de amizade e família.

É uma história que surgiu para mim com uma imagem. Há muitos anos, eu não sei por quê, criei a imagem na minha cabeça de uma jornalista que tinha sido assassinada sufocada com recortes de jornal.

Os recortes eram das matérias que ela tinha escrito para o jornal local. E a partir dessa imagem, eu desenvolvi a história que estou escrevendo hoje.

Porém, a trama foi evoluindo para não ser mais apenas uma história policial, mas um comentário social.

Eu faço um comentário sobre homens ricos e poderosos, comento o papel social da mulher nos anos 1960 no Brasil e também comento sobre a violência contra LGBTs.

O que a história que eu quero contar evoluiu para ser, basicamente, é um grande comentário sobre um assassinato não resolvido durante a ditatura militar brasileira por conta da influência de um homem poderoso.

E foi quando faltavam três capítulos para eu terminar de escrever essa história que eu me perguntei: será que eu tenho maturidade para isso? Será que eu já vivi o suficiente para escrever sobre isso?

E a partir dessas perguntas, toda uma insegurança me atingiu.

Eu comecei a pensar que eu era imatura ou jovem demais para escrever essa história, que eu não sabia o suficiente sobre história brasileira ou sobre maternidade e que eu ia sofrer muito hate da comunidade LGTB por contar uma história que está onde não é meu local de fala.

E sentir toda essa insegurança é a pior coisa do mundo para um escritor porque a gente trava.

Faltavam três capítulos para terminar a minha primeira versão e eu comecei a sentir que não podia mais continuar escrevendo porque eu não sabia contar “histórias sérias”, só romances para jovens adultos.

Porém, isso está errado. E quando eu entendi que me entregar a essa insegurança era errado, me senti melhor.

Eu não posso travar a minha escrita porque eu me senti insegura.

Eu tenho que continuar escrevendo, pesquisando quando eu tenho dúvidas e, no fim, passar minha história para alguém que vai poder me ajudar.

É para isso que serve a leitura crítica, a leitura sensível e os leitores betas, afinal de contas.

Eles estão aí para me dar uma luz quando eu acho que a história que eu escrevi pode ter algum problema por conta da minha imaturidade para o tema ou assunto escolhido.

E pensar nisso, que eu não preciso estar sozinha no processo de escrita de uma história, me acalmou. Eu até já fiz uma lista de quais pessoas eu vou precisar que leiam a história antes do lançamento.

E eu fiz essa lista não só para acalmar as minhas inseguranças, mas para investir no meu crescimento enquanto autora. Porque é ouvindo opiniões de outras pessoas, e pessoas qualificadas, que a gente aprende.

Talvez eu até tenha maturidade para escrever uma história sobre um assassinato e sobre maternidade, mesmo não sendo mãe.

Porém, eu posso não ter o conhecimento necessário sobre os anos de chumbo para publicar algo que se passa nesse período.

Por isso, eu tenho que parar de travar quando acho que não tenho maturidade para os temas ou sou ignorante sobre algum assunto porque eu não preciso passar pelo processo de escrita sozinha.



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