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Valley of the Dolls: as mulheres idolatradas por Electra Heart

Valley of the Dolls: mulheres idolatradas em Electra Heart

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Em Valley of the Dolls, encontramos Electra Heart em mais um de seus momento de reflexão.

A letra nos mostra como ela se sente e ilustra a dimensão de sua depressão depois de ela ter acordado para a realidade em que se encontra.

Nossa protagonista está triste, frustrada e tem ideias fatalistas sobre seu próprio destino.

Electra considera a si própria como uma boneca, um ser vazio e sem personalidade, que só ganha uma identidade quando vive no reflexo dos outros.

Com uma melancolia até um pouco irônica, ela brinca com o fato de que não tem a menor ideia de quem é.

A inspiração em “O Vale das Bonecas”, filme de 1967

O título de Valley of the Dolls vem do filme “O Vale das Bonecas” de 1967, que tem uma grande influência no conceito da história e que foi uma das inspirações para Marina começar a escrever o álbum.

O filme narra a história de três mulheres que vivem no universo do show business na Hollywood dos anos 60.

Elas enfrentam o preconceito com seu sexo e as dificuldades de lidar com a fama e o dinheiro.

O filme retrata um mundo em que o reconhecimento chega com rapidez, mas no qual a decadência é um medo constante e uma cruel realidade.

Marina não é literal em sua inspiração.

Não existe nenhuma linha do filme que se possa encontrar na música, mas é possível perceber a inspiração na história.

Electra tem um pouco de cada uma das mulheres mostradas no filme, mas especialmente de Neely O’Hara.

Ela é uma jovem talentosa que começa pequena, mas que chega mais longe no final da narrativa.

Quando ela consegue a fama, termina não sabendo lidar com o que conseguiu e se perde na bebida e nos calmantes (as bonecas, na gíria americana sessentista). Na abertura do filme, temos a seguinte fala:

Escale o Everest e chegará ao Vale das Bonecas.
É uma ascensão brutal e penosa.
Ao chegar ao alto, espere que a euforia lhe invada, mas não é assim.
Você está só.
E o sentimento de solidão é assombroso.

A frase vem acompanhada de uma animação que mostra três pessoas em um vale. Pessoas essas que se transformam em comprimidos, fazendo alusão às três personagens principais do filme.

As bonecas eram a sensação da época, uma maneira de fugir da realidade ao mesmo tempo em que não se queria perder um segundo dela.

As decadências de Neely O’Hara e Electra Heart

A frase acima é altamente aplicável à vida de Electra Heart e, não é a toa que esse filme foi o estopim para a história do álbum.

Fala-se no filme sobre a escalada até o sucesso, sobre ascender em Hollywood e ser uma estrela reconhecida por todos.

Um desejo que Marilyn Monroe também tinha. A subida é árdua e demanda que a estrela se desfaça de certas pessoas, traços de moralidade e personalidade.

Essa ascensão penosa promete só sorriso, o pote no final do arco-íris.

Quando se chega lá, entretanto, percebe-se que o “lá” nunca existiu. Porém, não tem mais como voltar e recolher os pedaços.

Neely se desfez do homem que amava, da sua humildade e de suas amizades para ser uma atriz e cantora adorada pelo público.

Quando conseguiu, ela se viu viciada em comprimidos e se sentindo vazia.

Na mesma medida, Electra se desfez de sua personalidade em troca de felicidade, mas a felicidade idealizada por ela não existia. Ela se viu sozinha e, também, vazia por dentro.

Valley of the Dolls fala sobre a solidão, o sacrifício vazio e o sonho que apenas tira.

O Vale das Bonecas como um espaço no imaginário

Durante a análise de Valley of the Dolls, é interessante notar como o Vale das Bonecas deixa de ser um conceito para se tornar um espaço no imaginário social.

Ele se torna um lugar imaginado que é habitado por mulheres admiráveis e invejáveis.

Uma espécie de categoria onde coloca-se as figuras de mulheres que alcançaram o sucesso e que inspiram.

Para Marilyn Monroe, Greta Garbo estava no vale das bonecas. Para Electra, as esposas e mães perfeitas estavam no vale dos bonecas.

Nessa ideia, as meninas e mulheres colocam o conceito que têm sobre certas celebridades em uma prateleira imaginária para servir de inspiração e motivação.

Esse é um lugar invisível, mas que é a residência das mulheres que tem tudo aos olhos daquelas que julgam ter nada. O vale das bonecas é uma invenção nossa corroborada pela mídia.

Nossos desejos colocam essas mulheres lá e a mídia vende a vida perfeita que elas têm como o ideal.

Só que tudo aquilo que habita o vale é apenas um fantasma do sucesso, um reflexo dos nossos desejos.

Electra se apegou ao que via no vale das bonecas. Ela imaginava que o casamento perfeito seria a solução para seus problemas e idealizou a figura da dona de casa que via na televisão.

Porém, quando ela formou uma família, percebeu que aquela não a felicidade que ela buscava.

Nessa altura, em Valley of the Dolls, ela está perdida e mergulhada na depressão de um casamento sem amor.

Electra também habita o vale

Nessa altura de sua jornada pela perfeição, Electra acabou ela mesma habitando o vale.

A primeira linha da música diz: “In the valley of the dolls, we sleep” (no vale das bonecas, nós dormimos) usa o pronome na primeira pessoa no plural para descrever tanto a si própria, e suas diversas personalidades, quanto para incluir outras mulheres ali.

É interessante como essa frase é importante para o momento em que Electra se encontra e para o restante do álbum.

Com o pronome no plural, podemos perceber um avanço da mente dela no processo de cura.

Antes de restaurar sua persona original, ela precisa aceitar o que aconteceu e precisa conviver com a realidade de ter uma mente seccionada.

Já, se o pronome se referir a outras mulheres que passaram, e passam, pela mesma situação, conseguimos perceber um afloramento do senso crítico dela, que é bastante visível na música seguinte, que é Hypocrates.

A morte simbólica de Electra Heart

Desde State of Dreaming, as letras têm nos preparado para o fim da Electra que conhecemos. Isto é, sua morte simbólica. Há tempos, ela nos diz que seu fim está chegando.

Mas é em Valley of the Dolls que esse momento se concretiza. A última frase do refrão nos prepara para esse momento e antecipa um espetáculo:

“In my life, I got this far
Now I’m ready for the last hoorah
dying like a shooting star
in the valley”

Os arquétipos que conquistaram Electra se foram. Ela morreu, matando aqueles que a dominavam. E das cinzas, ela está pronta para fazer renascer e apresentar ao mundo a verdadeira Electra.

Se pensarmos na vida de Electra de um ponto de vista que não o dela, de alguém de fora, conseguimos entender a comparação com a estrela cadente que ela faz.

Para o mundo, Electra era uma mulher linda, alguém que teve poder na escola, que arrumou um marido maravilhoso e construiu uma família de dar inveja. A vida de Electra era perfeita aos olhos dos outro.

Imaginem quantas meninas não a colocaram no vale das bonecas? Morrer como uma estrela cadente é, em suma, deixar de existir de uma maneira que ainda fascine os outros.

Pensemos na morte de celebridades e em toda a fascinação que as pessoas tem com esses falecimentos, por exemplo.

Nesse sentido, fãs viajam para visitar túmulos, param suas vidas para acompanhar notícias e documentários sobre.

E a morte de alguém relevante, por mais que essa pessoa seja apenas relevante em um bairro ou em um grupo de vizinhos, é, de certa forma, um espetáculo.

A morte de Electra, por mais simbólica que seja (afinal, ela é simbólica) termina por ser um espetáculo.

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