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marina and the diamonds electra heart

Electra Heart: uma história que questiona o papel social da mulher

Em abril de 2012, Marina and the Diamonds (agora conhecida apenas como MARINA) se reinventou de maneira inédita.

A cantora já era conhecida do universo pop indie, porém se arriscou no cenário mainstream ao lançar o dançante e questionador Electra Heart.

O álbum conceitual é um experimento da carreira de Marina e conta a história da jovem Electra Heart.

A personagem é impressionável, tem um background problemático e se deixa influenciar pela mídia ao buscar pela felicidade.

Na busca por amor e por aceitação, Electra assume personas que têm o papel de levá-la ao sucesso.

Começando na adolescência da personagem, passando por um casamento fracassado e terminando com sua libertação das amarras sociais, Electra Heart levou Marina ao estrelato mundial e é considerada sua obra prima.

Neste artigo, você vai conferir:

Quem é Marina and The Diamonds?
Como Marina construiu Electra Heart
O que inspirou Marina a criar a personagem
Narrativa transmídia e Tumblr
Os arquétipos utilizados na narrativa
Qual é a história de Electra Heart?
Como as músicas deluxe se encaixam na narrativa
A performance de Electra Heart nos charts
Como o álbum impactou a carreira da Marina
A reflexão que Electra Heart nos traz

 

Quem é Marina and The Diamonds?

Marina Lambrini Diamandis nasceu na pequena cidade de Abergavenny, no País de Gales, em 10 de outubro de 1985.

As raízes gregas são algo de que Marina se orgulha bastante. A família do pai dela está localizada na ilha de Lefkada, onde Marina passou parte da infância e adolescência.

Marina sempre demonstrou muito interesse pela música pop, sendo uma grande fã de Madonna e do poder que a música pop tem de entrar na vida das pessoas e comunicar temas complexos de maneira leve.

Apesar disso, a escolha de seguir a carreira musical foi algo inusitado.

Aos 18 anos, Marina resolveu se mudar para Londres para tentar viver de música. Logo, a cantora lançou o primeiro EP, Mermaid Vs. Sailor, no MySpace em 2007.

O reconhecimento chegou para Marina em 2010 com seu primeiro álbum de estúdio, The Family Jewels, uma sequência de canções questionadoras e críticas.

Do primeiro álbum, podemos destacar o single “Hollywood” que, nessa fase, era sua música mais famosa nos charts e que já entrega um pouco os temas do segundo álbum.

Como cresceu longe da mídia e assistindo a cultura pop de longe, a visão de Marina sobre a fama e sobre o pólo cultural americano sempre foi bastante crítica.

Em Hollywood, por exemplo, ela traz a fascinação que os filmes e o sonho americano causam nas pessoas.



Como Marina construiu Electra Heart

Inicialmente, Electra Heart não era para ser um álbum, mas um projeto paralelo.

Marina contou em uma série de tweets que ela teve uma conversa com seu empresário sobre ela se tornar uma pessoa completamente diferente para o próximo álbum e que ele disse que não.

Então, ela criou a persona de Electra e um álbum inteiro ao redor dela.

As novidades do álbum não se limitaram ao conceito, mas também ao processo de composição e produção das músicas.

Marina é uma artista que gosta de trabalhar sozinha. Em The Family Jewels, por exemplo, ela foi a compositora de todas as músicas, tendo ajuda na composição de apenas 5 das faixas.

Porém, com a pressão da indústria e o desejo da gravadora de estourar nos Estados Unidos, Marina aceitou a convocação de produtores famosos, como Dr. Luke.

Marina foi compositora solo de apenas duas das músicas do Electra Heart, “Fear and Loathing” e ”Teen Idle”. Sendo que oito outros compositores ajudaram a escrever as músicas e oito produtores se envolveram.

Foi uma decisão corajosa para ela, mas que envolveu muito medo.

Essa é uma experiência que ela contou em “Fear and Loathing”, que se encaixa perfeitamente na narrativa de Electra Heart, mas que foi composta para ser um encorajamento para Marina deixar mais alguém se envolver no seu processo criativo.

O que inspirou Marina a criar a personagem

Marina já declarou que suas referências para a criação do álbum vieram de diversos lugares, mas principalmente da representação feminina na mídia e do papel feminino percebido pela sociedade.

No álbum, ela explora esse papel por meio de arquétipos usando interações sociais, amorosas e familiares.

Livros e filmes

Marina já declarou que a faísca para que ela começasse a escrever Electra Heart como um álbum conceitual veio de O Vale das Bonecas, um filme de 1967, inspirado no livro de mesmo nome (1966).

A história, inclusive, inspirou a décima música do álbum, “Valley of the Dolls”.

No filme, três mulheres tentam a sorte em Hollywood, levando seus corpos e suas mentes a extremos em favor de um sonho.

O paralelo com Electra Heart é contar a história de alguém que quer tanto alguma coisa que se dispõe a perder a própria identidade em troca de um sonho e da perfeição.

Nas duas histórias, as protagonistas acreditam que a perfeição pode trazer o sonho e a felicidade. Porém, quando chegam onde almejam, descobrem que nada do que sonhavam era realidade.

Podemos dizer também que Marina pode ter tirado inspiração do livro “Fear and Loathing in Las Vegas”, do autor Hunter S. Thompson, para nomear a última música do álbum.

Dentro dessa categoria, também podemos citar o livro “Mulheres Perfeitas” de Ira Levin.

O livro, que virou filme em 1975 e em 2004, conta a história de um casal que se muda para uma cidade onde as esposas são perfeitas.

O segredo é que elas estão sendo substituídas aos poucos por autômatos.

Marilyn Monroe e hollywood

Um fantasma constante na história de Electra, e que ganha uma ode em “State of Dreaming” é Marilyn Monroe.

A atriz foi um ícone de sexualidade e beleza no século XX, continuando a viver como uma figura que está acima de todos nós.

Porém, Marilyn também era uma persona, assim como Electra.

Podemos dizer, também, que a temática de filmes adolescentes também é uma inspiração.

Imagina-se que a personagem Electra Heart tenha crescido consumindo esse tipo de mídia e se inspirando nessa dinâmica.

Valores do pós-guerra

A estética dos anos 1950 e 1960 é mais uma das inspirações, marcando a linguagem visual de Electra Heart, além de ser inspiração para os arquétipos.

O primeiro deles, a housewife, é uma referência direta ao ideal da esposa perfeita do pós-guerra no sonho americano.

O trabalho de Cindy Sherman

Uma grande inspiração visual para Marina nessa era foram os trabalhos da fotógrafa americana, Cindy Sherman.

Nós temos uma referência textual clara ao trabalho da artista no vídeo “The Archetypes”, onde Marina diz que o conceito contém “uma ode à Cindy”.

Mas a maior referência é visual, onde podemos ver que Marina fez sessões de fotos recriando as imagens de Cindy, porém vestida como Electra.

Narrativa transmídia e Tumblr

Como você já deve ter percebido até agora, não foi apenas através das músicas que Marina apresentou a história de Electra Heart ao mundo.

Na verdade, ela utilizou uma série de recursos como: música, videoclipes, moda, sessões de fotos e suas redes sociais.

Electra tinha vida própria nos dois anos entre o início e o final da era, o que foi alimentado especialmente pela presença de Marina no Tumblr.

A primeira metade dos anos 2010 foi um grande momento para a rede social, o que ajudou muitos artistas a ganhar a atenção do grande público, como Lana del Rey, Lorde e Arctic Monkeys.

Marina, e sua Electra Heart, foi uma das grandes privilegiadas desse movimento, se tornando o rosto das meninas Tumblr, uma geração que glamuralizava a tristeza.

No vídeo abaixo, Mina Lee falou sobre a estética que surgiu no Tumblr e como a personagem de Marina teve parte nisso:

 

 

 

Além disso, não era apenas Marina quem tinha controle sobre a personagem, mas seus fãs.

Na época, foi bastante comum existirem fanfics sobre a história de Electra Heart, interpretações através de fanarts e até teorias envolvendo outras obras, como o álbum Cry Baby, de Melanie Martinez.

Os arquétipos utilizados na narrativa

Para contar a história, Marina utiliza quatro arquétipos.

Segundo as descrições da cantora, esses quatro arquétipos são definições da personalidade feminina difundidas pela mídia e nos quais todas as narrativas, ficcionais ou não, encaixam as mulheres.

Antes de entrar nesse assunto, é importante entendermos o que são arquétipos e sua relação com estereótipos.

Arquétipos são figuras sociais. Por exemplo: pai e bruxa.

Se alguém nos diz essa palavra, ou se lemos essa palavra em algum lugar, conseguimos entender e visualizar esses papéis. Sabemos que “pai” é um homem que tem filhos e que “bruxa” é uma mulher com poderes mágicos.

Arquétipos são facilmente confundidos com estereótipos, mas as definições são distintas. Os estereótipos acontecem quando esse papel social encontra o imaginário da sociedade.



Mesmo sabendo que “pai” é um homem que tem filhos, podemos imaginar que eles são severos, que chegam tarde em casa e que podem ter bigode.

Na mesma medida, sabemos que “bruxas” são mulheres com poderes mágicos, mas podemos imaginá-las com verrugas, malvadas e usando chapéu pontudo.

No álbum, Electra Heart aprende com esses arquétipos e acredita que eles são essenciais para ser uma mulher em sociedade.

Então, ela se deixa influenciar por eles e moldar sua personalidade ao redor disso.

Para construir a história, Marina partiu do arquétipo e representou as situações vividas pela personagem de acordo com estereótipos.

Ela trabalhou com as figuras da Dona de Casa, Destruidora de Lares, Ídolo Adolescente (ou adolescente ociosa) e Rainha da Beleza.

 

 

Housewife, a Dona de Casa

Inspirada nas donas de casa dos anos 50, o arquétipo da Dona de Casa é uma mulher que não mede esforços para que sua família esteja feliz e tudo dentro de sua casa funcione.

Ela ama seu marido, mantém a casa sempre limpa, sabe receber os convidados como ninguém e entende que precisa se anular para que aquele organismo funcione.

A maior aparição dessa personagem no álbum é emLies”, quando Electra percebe que seu lar está sendo ameaçado pelo fantasma da separação e sugere uma mentirinha.

 

 

Homewrecker, a Destruidora de Lares

Figura que vem no sentido oposto da dona de casa, a destruidora de lares é uma mulher que não se preocupa com os outros, apenas com o seu próprio prazer.

Inspirada nas amantes e aventureiras responsáveis por “destruir famílias” ao se envolver com homens casados, podemos enxergar essa mulher em plena forma na música “Homewrecker”.

Porém, esse arquétipo pode ter uma versão dúbia no álbum.

Seria ela apenas uma mulher que destrói o lar dos outros ao se envolver com um homem casado? Ou uma mulher que destrói seu próprio lar ao não ser a esposa perfeita que a sociedade espera que ela seja?

Idle Teen, a Ídolo Adolescente (ou adolescente ociosa)

Esse arquétipo representa toda a rebeldia e imprudência da juventude.

Inspirada nos adolescentes que vemos nos filmes, essa figura entra na história de Electra Heart para nos fazer pensar sobre a falta de sensatez que temos quando somos jovens.

Electra se arrepende de suas escolhas e coloca a maior parte da culpa no seu eu adolescente, aquela que tomou decisões sem pensar direito nas consequências.

Esse arquétipo aparece emTeen Idle, um hino que nos faz falta olhar com atenção para a juventude.

Um aspecto interessante sobre esse arquétipo é a grafia escolhida por Marina.

A expressão Idle Teen significa adolescente irresponsável, porém soa exatamente como Idol Teen. Poderia significar duas facetas de uma mesma persona.

De um lado, ela é uma adolescente fazendo escolhas erradas e sendo irresponsável. Mas por outro, é invejada pelos colegas e vive a vida intensamente.

Beauty Queen, a Rainha da Beleza

A Rainha da Beleza é o arquétipo mais disseminado no álbum e que permeia todos os outros.

Inspirado nas meninas malvadas das escolas americanas, nas dondocas que acham que merecem o mundo e nas mulheres que colocam a beleza acima de tudo, esse arquétipo aparece em diversas faixas do álbum.

A Beauty Queen é sempre apresentada da mesma maneira, como uma menina mimada e que gosta de brincar com os outros apenas porque ela sabe que pode fazer isso.

Esse arquétipo aparece com destaque em “Bubblegum Bitch” ePrimadonna”.

Qual é a história de Electra Heart?

Marina é uma cantora que, desde sempre, trouxe a psicologia e os questionamentos sociais para suas músicas.

Então, seus cinco álbuns de estúdio trazem uma coleção de análises sobre comportamento humano e o poder da mídia.

Em Electra Heart, ela assume uma personagem para questionar o papel social feminino, a influência da mídia e a que ponto chegamos para conseguir o que achamos que vai nos fazer feliz.

Para isso, lidamos o álbum inteiro com a figura de arquétipos, imagens femininas perpetuadas pela mídia.

É interessante como Marina utiliza a própria mídia para denunciar o que a cultura pop propaga. Ela diz ter se fascinado pela música pop pela facilidade com que a mensagem chega aos lares e como conquista as pessoas.

Em seu segundo álbum, então, ela utilizou da mesma ferramenta que cantoras pop, como Madonna e Britney Spears, usam para passar a sua mensagem.

Nessa história, a protagonista é uma menina influenciada pela mídia pop a atingir a perfeição.

Ela tinha o sonho de ser feliz e, por meio do que via na TV, acreditou que precisava ser a mulher perfeita para conseguir o que queria.

Nos filmes que assistia, as mulheres mais bonitas e comportadas chegavam à felicidade e ao amor verdadeiro. Então, Electra se agarrou a essa imagem e a tomou como verdade.

O álbum inteiro é contado em primeira pessoa e isso é um recurso muito inteligente porque um dos objetivos da Marina é fazer com que o ouvinte se coloque na pele de Electra e experimente seus motivos.

E o tom da confissão das músicas entrega essa experiência. A identificação é extremamente importante para que a história faça sentido e o discurso direto usado nas letras contribui significativamente para esse efeito.

A melodia é outro aspecto bastante importante no álbum porque elas dão dicas sobre o humor da Electra durante sua jornada.

Normalmente, músicas mais agitadas acontecem em momentos em que a Electra está nervosa ou animada com alguma coisa. Enquanto as músicas de melodia mais lenta mostram momentos de reflexão e tristeza.

Que história as músicas do álbum contam?

De uma maneira resumida, o álbum traz a história de uma menina que queria ser feliz.

Ao que tudo indica, Electra Heart nasceu e cresceu em uma família disfuncional. A relação dela não era muito boa com o pai, o que aparece em verso na música “Starring Role”.

Não sabemos se ela tinha uma família religiosa, mas há um verso intrigante sobre “queimar uma bíblia” em “Teen Idle” que se encaixaria bem no contexto.

O hobby predileto de Electra era assistir televisão e ver como as histórias dos filmes e séries sempre levavam as mulheres mais bem comportadas ao final feliz.

As vilãs, as mulheres que se comportavam mal e as esposas que não se submetiam ao marido tinham finais tristes.

E devido a pouca felicidade que teve quando criança, Electra queria encontrar seu final feliz.

Quando adolescente, ela percebeu que poderia usar  sua beleza para manipular as pessoas ao seu redor e compreendeu que deveria se comportar como uma dama.

Ela deveria ser amável e complacente, senão seu final feliz não chegaria. Por isso, Electra encerrou sua verdadeira personalidade dentro de si própria.

Durante todo o álbum, percebemos Electra sendo muito controladora com seus atos e pensando muito antes de tomar uma decisão porque é sua felicidade que está em jogo.

A vida perfeita que ela queria não combinava com quem ela era de verdade, então Electra criou personagens para levá-la onde precisava ir.

Se ela precisava arrumar um namorado com potencial para marido, chamava a Beauty Queen para conquistá-lo. Se precisava ser uma esposa invejável e lutar por seu casamento, ela chamava a Housewife.

Electra, então, encontra um namorado que a pede em casamento e promete o mundo inteiro para ela.

Os dois vivem uma relação fervorosa, estão se divertindo juntos e Electra parece ter encontrado o que queria, mas a vida a leva para outro lado.

Depois da fase de lua de mel, Electra se viu em um casamento em ruínas. Talvez por tudo ter acontecido em um furor ou pelo casamento não ser exatamente aquilo que os dois esperavam.

O marido se distancia e, para não se tornar uma esposa ruim, como as que via na TV, Electra sugere um casamento de fachada.

A esperança é que isso pudesse ajudar, mas não ajuda. O casamento termina e Electra se vê em declínio, caindo, cada vez mais, na infelicidade.

Ela entra em um processo de depressão e culpa, onde acredita ser uma destruidora de lares. Não do lar de outra família, mas do seu próprio lar.

Ela e o marido não se amam mais, ele não a idolatra mais como fazia em “Primadonna” e Electra se vê anulando a si própria para continuar com aquela farsa.

Então, nesse momento de plena solidão e tristeza, ela começa a se questionar.

Por que ela precisa se anular? Ela precisa mesmo estar casada dessa maneira? Por que seu marido não a ama? Electra questiona os papéis sociais e o seu próprio esforço em fazer uma relação ruim dar certo.

Ela sempre viu o casamento como o seu final feliz e o seu porto seguro, mas nada disso estava acontecendo. Estava mentindo e amando pelas duas partes e isso é errado.

Ela se questiona, então, sobre sua própria vida.

Electra estaria vivendo de verdade ou apenas sonhando? Será que tinha valido a pena colocar os arquétipos a frente de sua própria personalidade para seguir com algo que ela nem sabia mais se era real?

Porém, mesmo se questionando sobre tudo, Electra não deu um ponto final imediato ao casamento e ao seu sofrimento.

Ela demorou a se questionar sobre o mais importante: será que estava na hora de matar aquela Electra perfeita que todos conheciam?

Mas nossa protagonista não estava falando de uma morte real, mas de uma morte metafórica. Ela percebeu que há algo de muito errado com a maneira com que ensinamos as meninas e meninos sobre o que é o amor.

Tudo é sempre uma guerra, alguém será menos amado do que o outro e esse alguém, quase sempre, é a mulher. Ela se pergunta sobre suas próprias experiências.

Com os arquétipos dominando seus passos, Electra não teve experiências verdadeiras, mas apenas os passos calculados que a levariam à tal felicidade.

Coisa que ela percebeu ser algo inalcançável e injusto com ela mesma.

Electra, então, faz suas malas, desmancha o visual de esposa perfeita e, antes de ir embora de casa, expõe a hipocrisia do marido e da sociedade que a rodeia.

Ao final do álbum, encontramos a personagem pronta para entrar em uma nova jornada. Ela tem medo do que está por vir, mas sabe que se encontrou e que só isso já basta.



Como as músicas deluxe se encaixam na narrativa

Além da versão standard do álbum, ou seja, a versão com 13 músicas que conta a narrativa acima, Marina também lançou versões deluxe.

Essas versões vinham com faixas extras e somam 5 músicas.

Na versão deluxe comum, as faixas bônus são: “Radioactive”, “Sex Yeah”, “Lonely Hearts Club” e “Buy the Stars”. “How to Be a Heartbreaker”, o single de mais sucesso da época, estava anexado em uma versão deluxe bônus, lançada nos EUA.

Por serem faixas deluxe, essas músicas não afetam diretamente na narrativa de Electra Heart, mas elas ajudam a expandir o universo.

Por exemplo, em Sex Yeah, Marina fala sobre a desigualdade entre homens e mulheres quando o assunto é sexo. Essa é uma música com forte crítica, porém, quando colocada entre a narrativa, tem a mesma força de “Power and Control”.

Já faixas como Lonely Hearts Club, Radioactive e How to be a Heartbreaker teriam a mesma força de “Homewrecker”.

São músicas que não acrescentam na narrativa, mas que nos ajudam a entender a psique de Electra. Ela é uma pessoa que se julga inapta de amar porque mais prejudica do que ajuda o seu parceiro.

“Buy the Stars” também é uma música que expande o universo no sentido de explorar a independência emocional e o poder de fazer escolhas sendo mulher. Porém, ela tem a mesma intenção de “Lies” e “Starring Role”.

Por fim, uma música que não faz parte de nenhuma versão do álbum: “E.V.O.L”. Esta é uma favorita entre os fãs e foi lançada como single promocional em 14 de fevereiro de 2013, como presente de Valentine’s Day.

Esta também é uma música que tem a mesma similaridade narrativa de “Lies” e “Starring Role”. Nesse caso, a Marina canta sobre um relacionamento tóxico em que o amor se transforma no contrário.

A performance de Electra Heart nos charts

Electra Heart foi o primeiro álbum da Marina a chegar ao topo das paradas.

O álbum debutou em primeiro lugar na parada britânica, vendo mais de 20 mil cópias em sua primeira semana. Apesar de ter tido esse destaque, o disco é conhecido como um dos número um menos vendidos da década de 2010 no país.

Na Irlanda, o álbum também chegou a ser número um e ao redor da Europa, Electra Heart conseguiu um posicionamento mediano nas paradas. Na Suíça, ele chegou à posição 11 e na Alemanha, 17. Na Áustria, chegou ao número 25, na Noruega, ao 30, e na Suécia, 41.

Marina já era uma cantora conhecida na Europa, especialmente no Reino Unido. Na parada britânica, o The Family Jewels já tinha chegado à posição 5, por exemplo.

Porém, o desafio era romper a bolha britânica e chegar aos EUA.

O que Marina conseguiu através de uma sonoridade mais conhecida dos americanos, ajudada pela produção de Dr. Luke e outros, letras que criticavam o sonho americano e a ajuda da internet.

Electra Heart estreou na posição 31 do Hot 200 da Billboard, chegando a atingir a posição número 2 na parada de música Dance e Eletrônica. Estima-se que o álbum vendeu cerca de 300 mil cópias nos EUA.

Essa foi uma das melhores performances de um álbum da Marina nos EUA, já que nenhum dos álbuns seguintes chegou em posições tão altas.

Froot chegou ao número 8 no Hot 200 da Billboard, Love + Fear ao 28, e Ancient Dreams in a Modern Land, 92. Já no Reino Unido, eles foram melhor sucedidos, chegando respectivamente às posições 10, 5 e 17.

Opinião da crítica

E embora o Electra Heart tenha tido uma boa performance nos charts, ele é o álbum com menor nota entre os críticos do Metacritic.

Entre as 16 avaliações da crítica especializada do site, o segundo álbum de Marina recebeu nota 57, sendo considerado como um álbum que dividiu críticas. Já entre os usuários, a nota ficou em 8.6.

Isso porque a maior parte das pessoas estranhou a mudança de sonoridade desse álbum em comparação com o anterior.

A título de curiosidade, o álbum da Marina com nota mais alta no Metacritic é Ancient Dreams in a Modern Land, com nota 77 dos críticos e 9.2 dos usuários.

Já o álbum com menor nota entre os usuários é Love + Fear, com 8.1.

Como o álbum impactou a carreira da Marina

Após o sucesso do segundo álbum em solo americano, Marina voltou ao estúdio para gravar um álbum quase intimista.

Froot, o terceiro de sua carreira, veio em 2015.

O terceiro álbum demorou a sair, por decisão da própria Marina, e isso impactou sua carreira como um todo.

Tendo temas mais maduros, que exploravam a solidão e a descoberta do amor próprio, o álbum não foi tão bem recebido assim pelo público, que esperava algo semelhante à Electra Heart.

Apesar do sucesso que o álbum trouxe e do reconhecimento que Marina ganhou na América do Norte, para a construção de Froot, ela voltou sozinha ao estúdio e teve a ajuda de apenas um produtor, David Kosten.

A cantora declarou que detestou a experiência de trabalhar em conjunto com outros músicos e que ter controle total sobre sua obra é o que a realiza.

E desde que voltou a escrever e publicar suas músicas de maneira quase solo, às vezes contando com a ajuda de apenas um produtor, a carreira de Marina nunca mais atingiu o sucesso do segundo álbum.

O que não é um problema para Marina porque ela gosta de trabalhar sozinha.

A cantora e compositora tem uma característica muito interessante quanto ao seu processo musical: a independência.

Ela contou em entrevista que seu primeiro álbum foi escrito, produzido e mixado apenas por ela porque Marina não queria que ninguém mais turvasse seu processo criativo.

E a mesma coisa aconteceu durante o processo de criação do Froot. Marina escreveu e compôs todas as músicas, contando apenas com a ajuda de um produtor, David Kosten.

Essa exigência é compreensível: Marina quer ser autêntica na mensagem que está passando.

Além disso, ela disse ter a impressão de que ter a ajuda de compositores ou produtores poderia torná-la incapaz perante a mídia.

O hiato na carreira e o que veio depois

Em 2016, um ano depois de lançar o Froot, Marina deu um hiato na carreira.

Segundo entrevistas, ela não estava mais encontrando felicidade no que estava fazendo e nem satisfação em trabalhar.

Então, ela aposentou a composição e voltou a estudar. Marina estudou psicologia por um semestre.

Porém, relatou que, embora não visse mais propósito em continuar sua carreira, ela não conseguia parar de escrever músicas.

Isso nos levou ao quarto álbum da carreira da cantora, o Love + Fear, lançado em 2019. Ao todo, o álbum contém 16 músicas divididas em dois lados: Love e Fear.

Segundo Marina, as músicas foram classificadas de acordo com o princípio de que todos os sentimentos humanos têm origem no amor ou no medo.

Já em 2021, tendo sido escrito, gravado e produzido durante a pandemia de Covid-19, a cantora lançou Ancient Dreams in a Modern Land, seu quinto álbum de estúdio.

Atualmente, Marina está percorrendo a América do Norte em turnê.

A reflexão que Electra Heart nos traz

Muito mais do que ser um álbum pop que mudou a vida de Marina, Electra Heart traz uma mensagem poderosa para as mulheres de todas as idades.

Marina sempre acreditou que a música pop poderia entrar no lar das pessoas e entregar ensinamentos importantes.

Então, ela trouxe algo transformador em seu segundo álbum: uma narrativa alertando para os perigos de ser manipulável e acreditar em tudo o que você vê na TV.

As músicas foram escritas entre 2011 e 2012, época em que as redes sociais ainda não tinham o poder que têm hoje.

Porém, elas ganham um tom quase profético quando percebemos que Primadonna poderia ser o hino de qualquer influenciadora digital.

Electra Heart, acima de tudo, nos ensina a questionar nossa paixão por ícones da moda e da beleza, nossos próprios papeis sociais e nos ensina a colocar em dúvida a nossa definição de felicidade.

A preocupação que Marina nos traz é a obsessão com algo que pode ser uma mentira e ela contou essa história de uma maneira fascinante.

Aliás, a própria história desse segundo álbum da cantora pode ser comparada com a história de Electra: uma menina comum que chega ao estrelato ao assumir uma persona.

Dessa maneira, Marina mudou seu cabelo, suas roupas e seu comportamento para chegar onde queria e passar a mensagem que queria.

E é interessante notar que Electra Heart é o álbum preferido da maioria dos fãs da cantora que, até hoje, choram a morte dessa personagem.

É irônico como o coração na bochecha é visto como o símbolo de uma vida invejada, quando, na verdade, ele significa que viver de aparências nunca vai trazer felicidade.

 



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3 comentários em “Electra Heart: uma história que questiona o papel social da mulher”

  1. Marina é um personagem identitário ridículo e sem talento que serve à ideologia com seu discurso inventado com pretensões comunistas.

    Puro lixo.

  2. Que artigo maravilhoso! Parabéns pelo trabalho! Amo esse disco e pude entender muito mais sobre esse era incrível que foi o ‘Electra Heart’!

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