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marina and the diamonds electra heart

Hypocrates: a pressão da sociedade em Electra Heart

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Hypocrates é uma música que pode trazer interpretação dupla.

No primeiro dos casos, e no mais inocente deles, Electra Heart se direciona ao marido e o acusa de abuso emocional durante todo o relacionamento.

Porém, Hypocrates não fala apenas de um hipócrita, mas de vários. Electra não está apenas acusando o marido, mas a sociedade inteira.

A sociedade é inerente aos seres humanos, mas suas regras foram criadas por eles. O que significa que, em teoria, ela não teria vida própria, que nós, como indivíduos, poderíamos controlá-la.

Mas não é assim. Apesar de terem sido criadas por nós, esse conjunto de regras e costumes acabou se tornando algo intocável.

Você vai conferir:

Hipocrisia denunciada em Hypocrates
A sociedade e o culto à mídia e à felicidade
Uma sociedade presa em si própria
Pronome no plural
Lembrando de experiências anteriores

Para algumas pessoas, os costumes sociais são frágeis demais para serem alvo de críticas e forte o bastante para nos colocar em nichos e limitar nossas ações e pensamentos.

A vida de Electra Heart foi ditada por um sonho de felicidade e amor, mas que não estava separado da vida em sociedade.

Em diversos momentos do álbum, nós presenciamos nossa protagonista questionando os papeis e se frustrando com os “bons modos” exigidos.

Em Homewrecker, ela é acusada pela sociedade de ter destruído o seu casamento porque a norma dizia que uma boa mulher mantinha um casamento intacto.

Já em Power and Control, ela se pergunta porque o marido tem que mandar no casamento e porque todo relacionamento tem que ser um jogo.

Em Lies, ela esconde que seu casamento é uma mentira porque queria manter a ilusão aceita pela sociedade.

Hipocrisia denunciada em Hypocrates

No mundo em que vivemos, a sociedade dita regras arbitrárias e preconceituosas, mas que vários de nós seguem sem questionamento nenhum.

Por que um homem não pode casar com um homem? E por que uma mulher não pode transar no primeiro encontro?

Qual é o motivo de as crianças tem que ficar quietas quando um adulto está falando? Por que um homem não pode chorar?

E por qual razão uma mulher não pode usar saia curta na rua e não ser acusada de “provocar os homens”? Por quê?

Porque a sociedade, essa coisa que está numa esfera superior e nos julga como julga um deus, disse que não. Mas quem fez essas regras? Sim, nós mesmos.

E por que não mudamos essas regras? Porque a sociedade, que é essa coisa que julga como julga um deus, não deixa.

Quando chegamos em Hypocrates, Electra já se fez todas essas perguntas e já notou que o seu problema com os arquétipos não veio apenas de dentro dela, mas da sociedade.

A mídia tem uma parcela de culpa na criação dos arquétipos, sim, já que mostra comportamentos questionáveis como o ideal.

Mas esse tipo de mídia não existiria se a sociedade não endossasse essa visão.

A sociedade e o culto à mídia e à felicidade

Se não existisse um culto midiático e cultural pelas estrelas de cinema, Electra não teria se inspirado em personagens e celebridades para se tornar uma Bubblegum Bitch e uma Primadonna.

Caso não existisse o culto da sociedade mais tradicional pelo casamento perfeito, com uma esposa dona de casa fazendo todas as vontades do marido, Electra não acharia que a felicidade se encontrava ali.

Se não existisse uma sociedade julgando a mulher pelo término de seu casamento, Electra não teria ficado presa naquela mentira, encenando.

E se não existisse a cobrança para o jovem aproveitar sua juventude e para ser sensato ao mesmo tempo, Electra não se martirizaria por suas escolhas quando adolescente e pelos seus desejos.

A pressão social, talvez, tenha sido a grande mentora de toda a história de Electra.

Aquela adolescente que tinha problemas familiares e amorosos, sempre ouviu que a felicidade era tudo, que ela precisava ser feliz e que quem não era feliz era mais um tijolo frustrado no muro e mais uma ovelha triste no rebanho.

Electra via a felicidade sempre atada a uma família estruturada, a um casamento decente e à estrelas do cinema que tinham tudo.

Nessa visão, quem tem o tudo é quem é feliz. Mas a sociedade e a mídia esquecem de nos dizer que nem sempre dá para ter tudo.

Uma sociedade presa em si própria

A melodia da música não traduz o sentimento que a letra nos passa. O que é um erro porque Electra aparenta estar muito brava aqui.

Ela afronta a sociedade, a acusa de querer controlá-la e observa que essa mesma sociedade está presa em suas próprias regras.

Como se tornou uma entidade com vida própria, a sociedade saiu do controle da população.

Agora, ela é algo que paira sobre nossas cabeças perdida no tempo e em antigos costumes. Nas últimas linhas da letra, Electra diz:

“Yeah, you play the martyr for so long
that you can’t do anything wrong”

Ou seja, nós valorizamos tanto as regras que criamos enquanto sociedade que nos cerceamos. Estamos seguindo um fluxo datado por medo de mexer nas regras que nos mantém “seguros”.

Pronome no plural

No primeiro verso da letra, Electra diz que a sociedade é a única entidade que pode influenciá-la, que pode fazer dela aquilo que ela é.

E ela diz isso usando o pronome no plural, uma variação de “you”, que pode ser usado tanto no plural quanto no singular em inglês.

Usando o mesmo estilo de discurso, ela diz que a sociedade é o último laço que a está segurando.

Electra diz que, mesmo se livrando do marido, dos arquétipos e de tudo de nocivo que aquela vida trouxe, ela ainda não conseguirá se livrar da sociedade.

A verdade é que nenhum de nós ficará livre da sociedade porque essa entidade que parece tão distante somos nós mesmos.

Nossa mais mínima interação com outro ser humano é uma interação social, caracterizando uma sociedade.

Lembrando de experiências anteriores

A todo momento durante Hypocrates, lembramos das experiências anteriores de Electra.

Lembramos da pressão da sociedade para que ela continuasse casada, lembramos do julgamento pela separação e lembramos, principalmente de Power and Control, quando ela questiona a dinâmica dos relacionamentos.

Em dois momentos em Hypocrates, Electra fala sobre o que aprendeu sobre o amor com a sociedade:

“You said that love is no that easy
that’s the lesson that you teach me”

“I know you only want to own me
that’s the kind of love you show me”

Isso mostra que Electra aprendeu a amar da maneira mais tóxica possível. Por isso, ela mergulha nessa busca.

Electra sempre achou que o amor era difícil de alcançar e penoso de manter, que ela deveria amarrá-lo e domá-lo.

Então, chegamos em uma afirmação bastante poderosa no refrão, quando Electra pergunta: “Who are you to tell me who to be?”.

Mostrando que ela tem dono e esse dono é ela mesma, que ninguém vai mais dizer para ela o que fazer.

Nessa nova fase, Electra vai ser quem ela quiser.

Essa provocação e afirmação vem juntamente com o diagnóstico de que a sociedade em que ela vive é uma sociedade doente, que se julga pura enquanto empurra a sujeira para debaixo do tapete.

E isso não acontece apenas nos EUA, na Europa ou no Brasil, acontece no mundo inteiro.

O mundo está cheio de hipócritas e é isso que Electra vem nos dizer em Hypocrates.

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