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Fear and Loathing: medo de recomeçar em Electra heart

Fear and Loathing: medo de recomeçar em Electra Heart

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Em Fear and Loathing, encontramos Electra Heart na última parte de sua jornada. Nós acompanhamos enquanto ela passou de adolescente iludida para esposa decepcionada.

Vimos a personagem se perder e se encontrar. Vimos uma construção interessante de mundo em cima da cultura pop.

E, agora, a encontramos prestes a recomeçar.

Fear and Loathing tem um tema pesado, mas que transpira leveza por causa da maneira como é interpretada por Marina.

Assim como, também, pela melodia calma que soa quase como uma canção de ninar.

Essa música fala sobre o futuro de Electra e esse é um assunto nebuloso porque ela não sabe muito bem como será dali para frente. Ela apenas sabe que precisará aprender a viver sem os arquétipos.

Electra Heart fala com ela mesma em Fear and Loathing

Durante a letra, vemos Electra proferir palavras e expressões de calma para ela mesma, realmente se preparando para o capítulo final.

Ela sabe que precisará sair para o mundo e que vai carregar o estigma de seu passado por todo o futuro.

Esse estigma é o que a deixa com medo, mas a vontade de viver é muito maior do que o medo.

Então, Electra se encoraja o tempo inteiro, invocando o passado traumático para transformá-lo em incentivo. Como ela diz no pré-refrão:

“And now the time is here
Baby you don’t have to live your life in fear
And the sky is clear
Is clear of fear

Apesar do sucesso dos arquétipos em levá-la onde ela achava estar a felicidade, Electra diz que se encheu de amargura e que tem o coração vazio.

Ela não era feliz e escondia esse fato junto ao seu eu verdadeiro, o que a deixou completamente frustrada.

Se tornou um ciclo vicioso a dependência dos arquétipos, onde o desejo foi o estopim e a mágoa, o combustível.

Quanto mais frustrada ficava, mais os arquétipos tomavam a frente para guiar Electra pelo caminho.

O título dessa faixa também é importante, mas não apenas por dar o tom da música. Ele é importante que resume a realidade da persona original de Electra enquanto vivia escondida pelos arquétipos.

Ela vivia em um mundo de medo do fracasso e ódio de si própria.

Electra não gostava de sua aparência e de sua personalidade porque cresceu achando que nenhuma era suficiente para levá-la onde precisava ir. O medo entra nesse momento.

Nossa protagonista viveu com o medo constante de que seu verdadeiro eu aparecesse e estragasse a “vida perfeita” que ela tinha.

Os arquétipos como proteção

É importante lembrar que Electra tinha a vida perfeita aos olhos das outras pessoas, também, naquela ilusão de Valley of the Dolls.

Para os outros, ela tinha tudo porque sempre fez questão de aparentar ter tudo.

Ela era poderosa dentro de seu meio e um medo constante é o de ser usada, de as pessoas se aproximarem dela porque gostavam dela e não porque tinha certa influência:

Not everyone is out to screw you over
Maybe yeah, just maybe they just want to get to know ya”

E depois de todas as péssimas experiências amorosas e um ambiente tóxico em casa, não é surpresa que Electra tenha vivido com medo de se expor e acabar “ferida” pelos outros.

Ela criou uma barreira para as pessoas por medo de ser descoberta, de ser usada e por medo de amar sem ser correspondida. O que era uma constante em sua vida antes de Bubblegum Bitch.

Os arquétipos funcionaram como uma armadura.

Mas, agora que está sem eles, Electra entende que não são todas as pessoas que querem se aproximar dela para se aproveitar de quem ela é ou do que ela tem.

O que vai acontecer com a nossa protagonista no futuro é uma incógnita, mas uma das únicas coisas certas sobre esse futuro é que ela nunca vai deixar de pensar no passado e nos arquétipos.

Isso, inclusive, é ótimo para o processo de cura dela. Pensando sobre as personalidades que tinha, Electra se pergunta:

I wonder which one that they like best?

Será que da estudante implacável que comanda todos ao seu redor? Ou da dona de casa perfeita satisfeita com seu casamento? Ou, ainda, da magoada e frustrada destruidora de lares?

Chegou a hora de as cortinas se fecharem

Diferente de outros momentos, em que Electra reconsideraria os arquétipos, em Fear and Loathing ela apenas pensa sobre as consequências.

Em State of Dreaming, ela acorda para a influência dessa vida de mentira, mas continua tentando fazer funcionar. Aqui, porém, ela não quer mais essa vida.

Electra não quer mais a perfeição, não quer ter tudo, não quer habitar o vale das bonecas. E ela sintetiza sua decisão em um verso:

I’m done tryna have it all
and ending up with no much at all

E trazendo novamente a ideia de uma peça de teatro, que é um conceito de State of Dreaming, ela nos diz, pela última vez, que seu momento chegou e que as luzes logo serão apagadas.

A peça encenada que foi a vida de Electra com os arquétipos chega ao fim. Ela sabe que vai explodir e desaparecer, mas que uma nova luz nascerá onde ela explodiu.

Nossa protagonista fala sobre desejo aqui também, mas dessa vez eles são novos desejos:

I want to be completely weightless
I want to touch the edgy of greatness
Don’t wannabe completely faithless

Electra quer viver sem culpa e não quer perder a esperança no meio do caminho. Ela quer uma ascensão limpa das cinzas de si própria.

A canção de ninar em grego ao final

Ao final dessa faixa, existe a adição de um bastante intrigante. Soando etéreos e quase mágicos, os versos são cantados em grego pela avó de Marina.

Ela contou que gravou a avó cantando em sua cozinha, na Grécia, e achou que caberia perfeitamente para encerrar o álbum.

A letra da canção fala sobre alguém que deseja coisas. Deseja acariciar cabelos negros, beijar lábios de cinzas, ver fadas e danças mágicas.

Alguém que quer experiências exóticas em um lugar exótico. Grande parte da história de Electra gira em torno do desejo, então não é surpresa que esses versos se encaixem aqui.

Além disso, o que é curioso é a história de Electra terminar com uma canção que fala sobre desejo quando ela entendeu que foram os desejos que a levaram até aquele ponto.

Ou esse trecho de canção sintetiza o álbum inteiro ou nos anuncia que Electra nunca parará de desejar porque é impossível viver sem desejar nada, não?

Ela só precisa aprender a desejar direito, assim como todos nós.

Por fim, chegando ao encerramento da jornada, entendemos que Electra veio de uma família disfuncional e depositou todas as suas esperanças na ilusão de uma vida perfeita.

Ela criou personalidades que controlaram suas ações e direcionaram sua vida.

Mas em Fear and Loathing, ela entendeu que estava buscando o amor nos lugares errados e que não precisa ter medo de ser quem ela é.

E o que Electra vai fazer agora? Enfim, isso vai ter que ficar a cargo da nossa imaginação.

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