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marina and the diamonds electra heart

Electra Heart: a decepção com o casamento em “Lies”

Em Lies, do álbum Electra Heart, encontramos a primeira composição romântica e a primeira música que traz problemas no paraíso.

Nessa música, que tem uma sonoridade mais lenta e dramática, Electra confessa ao marido sua decepção com o casamento. Mas essa não é uma decepção como as outras porque ela diz que dessa vez ela não pode deixá-lo ir, ela não pode ficar sozinha.

Enquanto em Primadonna, tivemos a provocação de Electra para que seu namorado fizesse o pedido de casamento, em Lies, vemos que ela se casou e que a vida não é como antes.

 

 

Lies tem um tom de negociação

Esta é uma música sobre sentimentos, mas que tem uma letra bastante racional. Electra parece estar tendo uma conversa bastante franca com o homem com quem se casou.

Ela lança argumentos e traz causas e consequências. Ao que parece, nossa protagonista sabe muito bem o que está fazendo enquanto tem essa conversa com o marido. Ela está ciente do diagnóstico da relação e já conhece a cura que sugere no refrão.

Já no primeiro verso de Lies, uma bomba: “You never gonna love me” (Você nunca vai me amar). Numa explosão de realidade, Electra percebe que o marido nunca vai amá-la.

Ele diz que gosta dela como uma amiga, apenas a toca quando está escuro ou quando ambos estão bêbados.

foto promocional da era electra heart

Ela sabe que eles não combinam, mas não quer abrir mão daquela relação. Então, Electra sugere a mentira. Ela sabe que o marido é covarde demais para desmanchar a relação e admitir que estava errado.

Assim, ela encontra na mentira, na ilusão de um casamento perfeito, a resposta para suas angústias.

Electra sugere um casamento de aparências porque quer uma vida perfeita, mas também porque não quer que o mundo saiba que essa relação não deu certo.

Em Primadonna, ela conta como é perfeita e como tem tudo o que quer. Imaginem, então, o efeito que isso teria na imagem dela diante da sociedade e dela mesma percebendo que falhou em ser perfeita para o homem que ama?

Essa lógica não faz muito sentido hoje em dia, mas fazia nos anos 50 e 60.

foto promocional de electra heart

O Sorriso de Monalisa e o papel feminino

O Sorriso de Monalisa” é um filme norte-americano bastante forte e que explora, justamente, essa relação. A trama explora as relações femininas, a educação dada às meninas nos anos 50 e, especialmente, a percepção sobre o casamento.

Delicadamente, o filme denuncia como as mulheres se tornavam definidas pelo casamento. No filme, um colégio interno feminino contrata uma professora de artes com pensamento moderno para ensinar as meninas.

Lá, ela se depara com um colégio que não ensina a pensar, mas apenas educa e  prepara suas alunas para serem boas e dignas esposas.

cena do filme o sorriso de monalisa

Uma das alunas, Betty, interpretada por Kirsten Dunst, é uma das primeiras alunas a se casar e tem a ilusão de que tudo será perfeito.

Mas assim como Electra, ela se decepciona quando descobre que o casamento é muito diferente do que imaginava. De quebra, o marido não a ama.

Betty corre até sua mãe para pedir ajuda e recebe a seguinte resposta: “o que faz aqui? Volte para o seu marido!”. Mesmo depois de explicada a situação, a mãe de Betty ignora o clamor da filha.

Ela argumenta que a esposa deve ficar ao lado do marido e que Betty deveria fingir que estava tudo bem.

cena do filme o sorriso de monalisa

Dona de Casa: um dos arquétipos de Electra Heart

As mulheres casadas dos anos 50 e 60 são o famoso arquétipo da Dona de Casa explorado em Electra Heart. A dona de casa é a rainha do lar, a mulher que cozinha, limpa, cuida das crianças e sempre está belíssima para receber o marido quando ele chega em casa.

Parece até uma coisa boa, apenas ficar em casa enquanto alguém traz o dinheiro para casa, mas essas mulheres costumavam levar uma vida triste e sem liberdade nenhuma.

Era esperado certo comportamento delas e, se não excedessem as expectativas, não eram boas esposas. Elas teriam falhado em seu papel como mulher, já que esse era o único papel que uma mulher poderia almejar. Por esse lado, a atitude de Electra é compreensível.

Betty, de O Sorriso de Monalisa, poderia ter voltado para casa e sugerido uma mentira. Porém, ela preferiu terminar o casamento e perseguir sua vontade de estudar e escrever. Electra, por outro lado, prefere sugerir a mentira e manter as aparências.

foto promocional de electra heart

O papel da esposa como pilar único do casamento

Muito do peso do sucesso de um casamento é colocado sobre a mulher. E, infelizmente, ainda hoje conseguimos perceber essa nuance. Principalmente quando ouvimos algum caso de separação ou traição, é comum perguntarmos se a mulher estava sendo uma boa esposa.

É claro que a pressão para o casamento existia para os homens, mas não da mesma maneira. O casamento para os homens sempre representou a perpetuação da espécie.

Eles se casavam mais tarde e levavam seu papel como marido com menos seriedade porque nunca foram definidos pelo casamento.

O que traz uma nova reflexão para a história de Electra. O que seria de seu marido, caso os dois se separassem? Provavelmente, aquilo seria contabilizado como um erro no passado dele. Porém, esse pequeno erro para o homem se transforma em tragédia ao ser transferido para o âmbito feminino.

A separação para uma mulher nos anos 50 e 60 era o fim de sua seriedade e dignidade. Ela seria vista como uma mulher fácil, como uma mulher de menos valor e teria sua vida social completamente arruinada.

Por esses e outros motivos, conseguimos entender as escolhas de Electra em Lies.

 



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