melanie martinez no clipe de pity party

Cry Baby: uma tragédia melancólica imaginada por Melanie Martinez

Em 2015, Melanie Martinez trouxe ao mundo o seu primeiro álbum de estúdio, Cry Baby. Ela despertou a curiosidade de muitas pessoas com suas melodias criativas, vocais únicos, letras perturbadoras e uma tragédia melancólica.

Cry Baby conta a história da personagem de mesmo nome, uma menina depressiva e ansiosa, que vive as piores aventuras que alguém poderia viver.

Escrito para ser um álbum conceitual, ou seja, um álbum com músicas que contam uma única história, Cry Baby também conta com clipes que mostram de forma visual as desventuras vividas pela menina.

Essa não é a primeira vez que um artista lança um álbum conceitual com videoclipes que ilustram a história. Mas Melanie Martinez se destacou pelo conceito trazido.

A personagem criada por ela vem de um lar completamente desestruturado, o que a faz chorar o tempo inteiro e não conseguir desapegar de sua infância. Cry Baby é uma adolescente que não cresceu.

Então, a constante da menina é vestir-se como um bebê, se comportar como um bebê e chorar como um bebê.

A história de Cry Baby começa quando ela ainda é uma criança, mas a acompanhamos enquanto cresce, se apaixona e passa por perigos.

Entre os temas pesados da história estão sequestro, assassinato e uma possível internação em um hospital psiquiátrico.

Melanie Martinez antes de Cry Baby

Melanie Martinez nasceu em Nova Iorque em 1995 e canta desde adolescente. Em 2012, ela ficou conhecida do grande público, e do mercado musical, ao participar do The Voice.

No reality show, ela foi mentorada por Adam Levine, vocalista do Maroon 5, e se destacou pelo estilo único que empregava nas músicas.

Melanie fez sua audição entregando uma versão indie e intimista de Toxic, de Britney Spears, e conseguiu virar três cadeiras a seu favor.

Ao longo das semanas em que foi uma participante do The Voice, ela encantou o público e conquistou a internet com seu próprio twist em músicas famosas.

 

 

O estilo musical de Melanie é o indie pop, mas ela representa muito mais do que um gênero. Melanie traz uma ambientação fofa, mas assustadora naquilo que canta. A voz dela é carregada de uma respiração forte e, apesar de soar suave, tem potência.

Desde que surgiu no The Voice, Melanie apresenta uma persona que mistura o infantil com temas pesados e profundos, quase como se quisesse mostrar que as crianças também sentem e sofrem.

Muitas vezes, inclusive, essa persona pode confundir e provocar uma sexualização de elementos infantis.

Os maiores exemplos disso são alguns dos ensaios fotográficos ou as fotos postadas no Instagram pessoal da cantora, onde ela posa com mamadeiras, chupetas e babadores de maneira sensual.

Apesar dessa digressão, porém, Melanie gosta de brincar com o universo infantil e com as desventuras dessa era.

Usando roupas delicadas, golas redondas e vestidos rodados, soando com uma voz incomum e exibindo um característico cabelo de duas cores, elas se tornou uma musa indie com uma legião adolescente de fãs.

Depois do sucesso do The Voice, Melanie resolveu escrever a história de Cry Baby. A personagem engloba toda a persona e o universo de Melanie, mostrando uma trajetória melancólica.

 

 

O conceito e a persona

Para contar a história de Cry Baby, Melanie foi além de seu estilo pessoal. A cantora sempre apresentou uma persona quase infantil e que tinha um estilo delicado, mas para viver a personagem, Melanie elevou essa persona à enésima potência.

Ela passou a usar babadores, posar com mamadeiras, ambientar photoshoots e cenários de apresentações com blocos de montar e animais de pelúcia.

Ela trouxe um conceito completo para a obra: uma mulher que nunca deixou de ser um bebê. Tudo isso seria um reflexo dos traumas que a personagem viveu e torna impossível de definir qual a idade certa de Cry Baby.

Não sabemos se a personagem é uma criança quando sequestrada ou apenas uma menina infantilizada, por exemplo.

 

 

A história metafórica de Cry Baby

Uma das características mais interessantes do álbum, e que proporciona diversas interpretações, é a narrativa em primeira pessoa.

Cry Baby é quem narra suas músicas (a maior parte delas, pelo menos) e isso nos faz entender o que a personagem está sentindo, permitindo que haja identificação com a história.

Porém, apesar de 12 das 13 músicas serem contadas sob o ponto de vista de Cry Baby, a primeira música do álbum nos descreve a personagem em terceira pessoa.

Em Cry Baby, Melanie fez a escolha de nos mostrar a personalidade da personagem antes de nos dizer que a história seria contada por ela.

Por tudo isso, podem existir diversas teorias para os acontecimento de Cry Baby. Existe uma versão oficial da história, apresentada por Melanie em três formatos: letras das músicas, encarte do disco e videoclipes.

Porém, algumas teorias sugerem que tudo o que Cry Baby conta poderia ser interpretado.

Em 2015, eu interpretei o álbum de maneira metafórica, entendendo que a personagem estaria dissociada de sua própria realidade, apresentando os fatos de maneira imaginativa.

Nessa interpretação, Cry Baby estaria para seu próprio passado como se fosse a história de uma personagem qualquer, mascarando os acontecimentos terríveis com metáforas. Confira no vídeo abaixo:

 

 

Para começar a entender a metáfora por trás das músicas do álbum, é preciso entender um conceito de psicologia trazido por Freud.

A dissociação para compreender o trauma

A ideia é que uma pessoa que sofreu um grande trauma pode contar a história do seu trauma imaginando que tudo aconteceu de uma maneira diferente.

Isso acontece porque o trauma é demais para entender e a vítima dissocia da realidade, imaginando que tudo aconteceu com outra pessoa ou com ela mesma de uma maneira diferente.

Um exemplo disso está no filme Freud Além da Alma, quando o psicanalista mais famoso do mundo analisa uma vítima. A vítima conta que seu pai passou mal em um convento de freiras e que ela foi até lá para reconhecer seu corpo.

Porém, a realidade é que o pai da menina morreu em uma casa de prostituição e, como precisar entrar em um lugar daqueles foi um trauma sem tamanho para a vítima, ela preferiu imaginar a situação acontecendo de outra maneira.

Usando esse conceito para interpretar a história de Cry Baby, podemos dizer que os traumas constantes vividos pela personagem (assassinato do pai, sequestro, rejeição, etc) fizeram com que ela visse sua própria vida em acontecimentos fantásticos.

 

 

A história oficial de Cry Baby

Apesar da interpretação metafórica da seção anterior, podemos traçar uma história oficial de Cry Baby usando três plataformas: a literalidade das letras, o encarte que acompanha o álbum e os videoclipes.

A literalidade das músicas, obviamente, também deve ser interpretada. Por exemplo, a nona música do álbum, Tag, You’re it, não fala sobre brincar de pega-pega, mas sobre um sequestro.

Com esses três fatores chegamos a uma narrativa pesada, mas interessante. Cry Baby é uma menina que nunca foi amada pelos pais e que está sempre chorando pelos cantos.

Ela não tem amigos e tudo o que acontece dentro de sua casa a deixa muito triste. Pelo videoclipe, podemos perceber que essa relação é muito ruim.

O parto de Cry Baby foi traumático, a mãe dela nunca gostou dela e seu irmão, logo nos primeiros minutos de vida, já a apelidou. Ela cresceu num ambiente sem amor e sem cuidados, vendo a mãe constantemente bêbada e sem uma figura paterna de qualidade.

 

 

A família de Cry Baby é completamente desestruturada. Sua mãe é alcoólatra, o irmão usa drogas e o pai é adúltero e corrupto.

Vemos essa dinâmica na segunda música do álbum, quando a personagem compara seu lar com uma casa de bonecas, onde todos estão sempre fingindo.

A mãe finge que não vê a traição do marido, o marido finge que quer estar com a família, o irmão finge ser um adolescente ajustado e Cry Baby tenta fingir que não é infeliz.

O assassinato do pai

Porém, a pressão dessa família desajustada termina por levar a mãe de Cry Baby ao extremo. Em Sippy Cup acompanhamos enquanto a mulher toma uma atitude contra o marido e o mata na cozinha de casa.

A letra fala sobre a presença desse homem: tinha amantes e levava dinheiro sujo para casa, provavelmente recebido em algum ato de corrupção.

Infelizmente, enquanto ainda criança, Cry Baby vê o corpo morto do pai. Sendo esse o primeiro grande acontecimento traumático de sua vida.

 

 

Sem sabermos o que aconteceu com a mãe de Cry Baby ou com seu irmão, o álbum nos leva a um segundo momento na história: Cry Baby começa a experimentar o amor.

O primeiro amor

Aqui, podemos vê-la como uma adolescente. Em Carousel, ela se apaixona pela primeira vez e confessa não gostar do sentimento.

O primeiro amor, para ela, é como um carrossel, onde ela roda, roda e nunca chega a lugar nenhum. Não sabemos se por não gostar do que está sentindo ou se o menino a rejeita, esse relacionamento não vai adiante.

 

 

Porém, Cry Baby não desiste. Talvez por nunca ter sido amada pela família, ela sai em busca do amor e se abre ao primeiro que lhe despertar qualquer afeição.

Lembramos que a letra de Cry Baby diz que ela tem o coração maior do que o cérebro, então se apaixonar fácil é uma prerrogativa para ela.

Os problemas com garotos

Em Alphabet Boy, a personagem se apaixona uma segunda vez. Porém, ela não se dá tão bem com esse menino porque ele está sempre tentando ensinar coisas à ela.

Ele acha que é mais inteligente e provoca Cry Baby o tempo inteiro, então ela responde.

Mas quando responde, ela se arrepende. Em Soup, ela diz que deveria ter ficado quieta e nunca falado nada. Essa afirmação é importante para entendermos onde a personagem está indo.

Com medo de perder o novo amor, ela se submete aos caprichos dele e pede desculpas pelos insultos. Completando a tríade amorosa de Cry Baby, ela tem sua primeira experiência sexual narrada em training wheels.

Mas, como vemos no videoclipe da música, o menino desaparece logo depois de a menina ajudá-lo a andar de bicicleta. Mais uma vez, Cry Baby está sozinha.

 

 

O terceiro bloco de acontecimentos na história começa quando Cry Baby está prestes a dar uma festa de aniversário.

Ela está arrumada, arrumou a casa e enviou convites para todos os conhecidos, inclusive para o menino que gosta, Johnny.

O aniversário frustrado e o sequestro

Mas, ao final do dia, ninguém aparece. Frustrada com aquela festa que não deu certo, Cry Baby sai pelas ruas da cidade.

 

 

Nesse momento, a cabeça da menina, provavelmente, não está em um bom lugar.

A personagem já está acostumada a não ter ninguém prestando atenção nela e já sofreu rejeições antes, mas o fato de ninguém ter aparecido não faz bem para ela.

Cry Baby está frágil e o Lobo Mau se aproveita dessa situação para sequestrá-la.

O Lobo Mau é uma metáfora para o sequestrador. Cry Baby é levada para o porão da casa dele e o homem assiste enquanto ela limpa e cozinha para ele.

Não sabemos ao certo que idade a menina tinha aqui e nem temos ideia das coisas que aconteceram com ela nesse período. Provavelmente, ela já era uma adolescente, mas será que sofreu abusos?

 

 

O sequestro é o segundo acontecimento traumático na história de Cry Baby não só porque ela ficou trancada, mas porque apenas saiu do cativeiro porque assassinou o sequestrador.

Tanto na música Milk and Cookies quanto no clipe, vemos a menina envenenando o Lobo Mau, um sinal claro de que ela é responsável pelo assassinato de um homem.

Se a mentalidade da personagem não estava em um bom lugar antes do sequestro, agora é que ela se encontra pior.

As consequências do sequestro na autoestima

Não sabemos exatamente o que aconteceu depois dessa situação, mas após Milk and Cookies, encontramos Cry Baby novamente se apaixonando. Porém, dessa vez o amor e a relação com o rapaz são diferentes.

 

 

Ao que tudo indica, ele tem namorada e Cry Baby não se importa, está obcecada pelo rapaz.

Sofrendo a rejeição por parte dele, ela acredita que precisa transformar seu corpo e seu rosto para poder se tornar bonita e conquistar o que deseja.

Então, temos Mrs. Potato Head, uma crítica à cultura da beleza e dos extremos para atingir um ideal.

Essas são, por fim, as últimas esperanças de Cry Baby de ter uma vida normal. A verdade é que essa menina nunca foi amada pela família e nem pelos namorados que teve.

Quando se livra de um sequestro, a maneira mais rápida de voltar à vida normal é se apegando ao que ela tinha antes: Johnny.

 

 

Contudo, nada disso dá certo e se ela vê sozinha com ela mesma. Por isso, a revelação de que precisa de ajuda.

Aceitando a loucura

Enfim, na última música do álbum, encontramos Cry Baby em um humor muito diferente. Ela está em um hospital psiquiátrico e se considera maluca, tanto que passa boa parte da música chamando a si própria de louca e perguntando “quem é normal?”.

Podemos imaginar, então, que ela está fazendo acompanhamento psicológico agora.

 

 

Cry Baby tem um histórico de doença psicológica, por causa da depressão e dos traumas que sofreu, e a terapia seria uma ótima saída para ela. Podemos imaginar até que a menina está contando essa história no divã de um terapeuta.

Cry Baby, em suma, precisa entender e assimilar tudo o que passou para conseguir evoluir… e que maneira mais interessante de entender sua própria mente do que fazendo uma jornada pelo passado imersa em símbolos e metáforas infantis?

Entenda toda a versão oficial (e as referências de Melanie) nesse vídeo:

 

 

A comparação com Electra Heart, de Marina and the Diamonds

Logo após o lançamento, Cry Baby enfrentou comparações e acusações de plágio por parte dos fãs de outra cantora indie: Marina and the Diamonds.

Electra Heart é o segundo álbum de estúdio de Marina e também se classifica como conceitual e, nesse ínterim, temas parecidos com os de Cry Baby.

Electra Heart acompanha a história de uma adolescente que se deixa influenciar pela mídia ao buscar a felicidade. Ela se deixa corromper por arquétipos e cria personas que deveriam levá-la ao amor verdadeiro, mas ela percebe que tudo não passava de um sonho. Em resumo, Electra Heart questiona os papeis sociais femininos, a dinâmica dos relacionamentos e até onde alguém está disposto a ir para ser feliz. Enquanto isso, os temas de Cry Baby são diferentes.

 

 

A comparação de Cry Baby com Electra Heart se dá justamente porque os dois são álbuns conceituais, contam a história de uma menina/mulher em desventuras e tem ambientações parecidas.

Porém, enquanto Electra Heart foca seus esforços em questionar a sociedade, Cry Baby conta uma história trágica com algumas pitadas de crítica social.

 



Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *