É preciso coragem para escrever ou "o maior problema que eu tive com Cinderella, do Amazon Prime"

É preciso coragem para escrever ou “o maior problema que eu tive com Cinderella, do Amazon Prime”

Recentemente eu assisti ao filme “Cinderella” da Amazon Prime, e a primeira coisa que eu pensei quando terminei de assistir foi que a história sofre de falta de coragem.

Nessa nova versão, nossa Cinderella se chama Ella, é uma designer de vestidos e quer ter um negócio próprio.

Ela não está à procura de um príncipe e não aceita a vida que o príncipe oferece para ela. Ella, porém, aceita a proposta de emprego de uma duquesa que está à procura de uma estilista pessoal.

A proposta do filme é ser disruptiva e diferente de toda história de princesa que já vimos.

Isso porque dá toda uma nova abordagem para a personagem Cinderela, traz humor e anacronismo, além de ter inovado em escalar Billy Porter no papel de Fada Madrinha.

Mas o que me deixou pensando que a história não teve coragem de ir até onde deveria foi o fato de Ella ainda terminar apaixonada pelo príncipe.

A falta de coragem de Cinderela, do Amazon Prime

Robert, o príncipe de Ella, é um rapaz confuso sobre seus gostos e objetivos. A única coisa que ele sabe sobre si próprio é que ele não quer ser como seu pai.

Por isso, ele recusa a ideia de ser rei e recusa casar por alianças. É ele quem se apaixona por Ella e é ele quem vai atrás dela para conhecê-la.

E embora seja incrível assistir essa inversão de papeis e ver que ele apoia Ella em suas empreitadas, ainda é uma narrativa que não combina com o estilo #Girlboss da trama.

Ella e Robert assumem um relacionamento e usam a palavra amor mesmo tendo se encontrado apenas duas ou três vezes. Pelo menos, eles não se casam no final, eles apenas começam a namorar.

Porém, eu não posso deixar de me perguntar se essa decisão não foi tomada por covardia do roteirista em deixar Ella seguir seu caminho como uma estilista solteira.

E essa decisão covarde resulta em um casal díspar: uma mulher que sabe o que quer, que tem um objetivo, e um homem que ainda está se descobrindo.

E esse tipo de narrativa tem um obstáculo muito claro: em algum momento, ele vai descobrir o que quer e os dois encontrarão um impasse.

Não dá para acreditar em um final feliz para os dois quando um dos lados é tão imaturo, como é Robert.

Por que é uma falta de coragem?

Cinderella, do Amazon Prime, é uma história covarde porque se recusa a sair completamente da zona de conforto.

O filme se compromete com a ideia de uma “princesa Disney” que não é salva por um homem e nem tem um príncipe como a solução de seus problemas.

Porém, não se compromete totalmente com a ideia ao trabalhar o príncipe.

Robert não conhece a realidade do mundo, não sabe o que é trabalhar para conquistar o que quer e ele não tem nenhum objetivo, a não ser viajar pelo mundo com Ella.

Sem querer, ao empoderar a princesa, o estúdio esqueceu de trabalhar a personalidade do príncipe.

Além dos problemas claros de construção do personagem Robert, a história também não se compromete completamente com a ideia de modernidade e inovação.

O figurino é anacrônico (e chega a ser terrível em determinados momentos), a diversidade de etnias entre os personagens é a típica diversidade cega de hollywood e as músicas são trabalhadas de uma maneira interessante.

Isso tudo cria um quadro moderno, porém o relacionamento não se moderniza o suficiente.

Sabe o que deixaria o relacionamento nesse filme condizente com a proposta disruptiva?

Ella negar a proposta de Robert não porque ele é um príncipe e ela tem um trabalho, mas porque eles estão em momentos diferentes de vida e Ella precisa de um homem que saiba o que quer.

Sabe o que seria interessante também? Depois de terminar com Robert, Ella encontra na corte da duquesa um homem que está na mesma fase de vida que ela.

Isso mostraria que o ela não ficou sem amor, ela só escolheu o que seria melhor para ela.

É preciso coragem para escrever uma boa história

Enfim, o que eu quero dizer é que o Cinderela, do Amazon Prime, não teve coragem de ir além e que isso acontece com escritores o tempo inteiro.

Ter coragem para escrever significa ter coragem de ir além dos seus limites, dos seus medos e das suas crenças para contar a história que você quer, e precisa, contar.

Se você quer contar uma história inovadora sobre uma garota não precisar de um homem para salvá-la, tenha coragem de contar essa história do jeito que ela precisa ser contada.

Se você quer contar uma história sangrenta sobre brigas de gangues e dominação de territórios, não tenha medo de matar personagens, de ter anti-heróis como protagonistas e de ser desumano.

Tenha coragem de contar uma boa história porque a covardia entrega tramas fracas e que deixam o espectador com aquela sensação estranha de que algo está fora do lugar.

 



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