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Coração Satânico: todos os preconceitos de um autor branco do século XX

Coração Satânico: todos os preconceitos de um autor branco do século XX

Coração Satânico, livro escrito pelo americano William Hjortsberg no século XX, é um desastre.

Ambientado na Nova Iorque de 1959, a história lançada no final dos anos 1970 segue Harry Angel, um detetive particular que é contratado por um advogado para encontrar um homem desaparecido, Johnny Favourite.

Johnny Favourite foi um cantor que sumiu nos anos 1940, mas que é pessoa de interesse para o contratante.

Com o objetivo de encontrar Favourite, Harry Angel conhece o submundo do Vudu em Nova Iorque e se envolve com seitas satânicas.

Porém, o que poderia ser interessante e diferente na história é justamente onde o autor peca.

William Hjortsberg faz todas as escolhas erradas e apresenta uma obra cheia de preconceitos de todos os tipos.

A promessa de uma história policial diferente

A promessa de Coração Satânico é ser uma história noir onde um detetive é contratado pelo Diabo para encontrar uma alma vendida que não foi entregue a ele.

E o início do livro consegue cumprir com esse objetivo, porém a trama se perde em uma revelação óbvia.

Nós sabemos desde o início das investigações que Harry Angel é a alma que o Diabo está buscando.

Harry Angel é vivido no filme de 1987 por Mickey Rourke

Isso tira completamente a surpresa e o gosto pela investigação.

Até este momento da trama, é interessante acompanhar a dedução de Harry Angel e suas andanças de uma possível testemunha à outra.

Além disso, Harry é um detetive interessante no início. Ele tem como característica assumir vários papeis durante a investigação.

Sua maleta está cheia de identidades falsas e é interessante acompanhar sua transformação em diversos outros personagens.

Porém, com o decorrer da história, e a presença de outros personagens, tanto a trama quanto o protagonista vão se perdendo.

Até que o leitor chega ao final da história com mais perguntas do que respostas.

A revelação de como a troca de almas entre Favourite e Angel aconteceu é muito confusa e acaba não funcionando por conta dessa confusão.

Além de não ser mais um plot twist, já que essa desconfiança vem desde o início.

Acaba que no final, a premissa (até cômica) de Coração Satânico fica esquecida e não tem impacto algum.

O machismo na narrativa (e a pedofilia e o incesto)

Característica típica da literatura escrita por homens no século XX, o machismo da narrativa aparece em peso em Coração Satânico.

E tudo começa com a personagem Epiphany, uma adolescente de 17 anos que é sexualizada e explorada pela narrativa o tempo inteiro.

Uma das primeiras descrições que Harry Angel faz da personagem é “os mamilos de menina marcando debaixo do suéter”.

Epiphany foi vivida por Lisa Bonet no filme de 1987

Além de ser machista, essa observação é pedófila. Algo que não incomoda o autor, pelo contrário.

A história de Coração Satânico se apoia fortemente na relação de Angel, que tem quase 40 anos, com uma menor de idade.

E a relação não é apenas descrita, ela é incentivada porque, segundo Angel, “Epiphany aparenta ser mais velha”.

O resultado é uma narrativa que sexualiza uma menina de 17 anos ao ponto da pedofilia e que glorifica seus atributos físicos.

E como se essa situação não pudesse ser mais nojenta, descobrimos que Epiphany é filha de Favourite. Ou seja, a relação que ela tem com Harry Angel, que é Favourite, é incestuosa.

Infelizmente, a situação de Epiphany na narrativa não envolve apenas machismo, pedofilia e incesto, mas também racismo.

O racismo da narrativa (e os preconceitos do autor)

Epiphany é uma menina negra, a única mulher na narrativa que sofre essa sexualização desrespeitosa.

Além disso, no último capítulo descobrimos que Epiphany foi assassinada de uma maneira brutal. Ela foi amarrada na cama de Harry Angel e tem uma arma enfiada na vagina.

A cena de morte da personagem

Isso é muito grave porque esse assassinato sugere que a personagem está sendo punida por sua própria sexualidade, uma sexualidade que foi colocada nela.

Esse crime nos leva aos outros três crimes cometidos durante a história que mostra o racismo “velado” do autor.

O primeiro homem a ser morto é um médico branco, que morre com um tiro no olho. O segundo homem a morrer, um músico negro, é sufocado com os próprios órgãos genitais, que foram arrancados dele.

Já a terceira vítima, uma mulher branca, tem o coração tirado do peito.

A cena de morte do médico, personagem branco

Ou seja, a morte dos personagens brancos é muito menos brutal do que a morte dos personagens negros, que eram envolvidos com Vudu.

O que isso nos diz sobre a narrativa? Que além de machista, ela é racista.

A definição torta de satanismo

Também ligado ao racismo do autor (e total falta de pesquisa) está a definição de satanismo dado no livro.

Durante a primeira metade da história, somos apresentados a personagens praticantes de Vudu. Epiphany é uma sacerdotisa dessa prática e é quem faz a tradução para Harry Angel.

Porém, a todo momento é necessário que a personagem entre para dizer que Vudu não é adoração ao Diabo. Embora Angel não aparente ter entendido essa lição.

Existem comparações e impressões que o personagem faz confundindo as duas coisas, o que é um claro sinal de racismo.

Margaret, a única personagem envolvida com satanismo, é astróloga e taróloga

Por mais que uma praticante explicasse que Vudu é uma prática própria sem ligação com o Diabo, Harry Angel, em seu mundo cristão-centrado, apenas consegue ver o Vudu como antítese ao catolicismo.

Para além desse olhar racista do Vudu, o autor não tem o menor conhecimento de ferramentas como o tarô e a astrologia.

Por exemplo, a personagem envolvida com satanismo na história é um astróloga apaixonada por tarô.

E essa confusão é justificada pelo autor no epílogo, onde ele diz que não estudou o que era o satanismo e como funcionava.

Ele apenas inventou, da cabeça dele, práticas que estariam ligadas ao satanismo. O que é uma completa falta de respeito e uma total falha no papel de escritor.

Se você não tem certeza sobre o que está escrevendo, o mínimo é fazer uma pesquisa detalhada para não cometer erros.

O completo delírio do autor

Enfim, como se não bastante tudo isso, o epílogo do livro traz uma declaração completamente delirante do autor.

Ele diz que: “sem saber exatamente como, parece que eu criei um clássico original”.

Eu confesso que dei uma grande gargalhada quando li isso porque William Hjortsberg teve a coragem de ser tão pretensioso assim com uma obra que não vence o teste do tempo.

Coração Satânico não é um livro memorável, nem para a época e muito menos para os dias de hoje.

A indústria do entretenimento lembra muito mais de O Bebê de Rosemary, A Profecia e O Exorcista como obras de horror, por exemplo.

E isso indica que o livro de William Hjortsberg não é nada além de uma obra de seu tempo.

Um clássico é um livro que está sempre nos trazendo novas perspectivas, novas leituras e novas discussões. Porém, a única coisa que Coração Satânico me trouxe foi asco.



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