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Como evitar escrever uma narrativa machista no seu livro

4 dicas para NÃO escrever uma narrativa machista no seu livro

Marcações:

Há algumas semanas, eu falei aqui no blog sobre como o livro Pilares da Terra tinha me decepcionado no arco de seu vilão maior.

Hoje, eu volto a falar sobre a obra de Ken Follett, mas colocando o foco na narrativa machista que o livro tem.

Pilares da Terra foi publicado pela primeira vez em 1989. A história segue a vida e as conquistas de diversos personagens tendo a construção de uma catedral como plano de fundo.

E alguns desses personagens são mulheres.

Nós temos quatro mulheres como personagens de destaque e que tem algum arco narrativo. Essas quatro mulheres têm histórias com começo, meio e fim, e duas delas conseguem o que querem até o final do livro.

Porém, nenhuma delas consegue se livrar da narrativa machista do autor e de descrições que só evidenciam seus corpos.

Tendo Pilares da Terra como exemplo, neste artigo eu vou trazer algumas considerações sobre o que torna uma narrativa machista e algumas dicas de como evitar essa narrativa prejudicial.

Você vai conferir:

As 5 características de uma narrativa machista
4 dicas de como evitar escrever uma narrativa machista

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As 5 características de uma narrativa machista

Então, antes de tudo: o que caracteriza uma narrativa machista? De maneira geral, um comportamento machista é aquele que diminui a mulher, seja física, emocional ou intelectualmente.

A narrativa de Ken Follett se contrói em cima de uma narrativa que dá ênfase ao corpo feminino e que prioriza a violência contra a mulher em momentos em que ela poderia ser evitada.

Compartimentei as características da narrativa machista do autor em quatro categorias:

1. Foco na descrição física

Na obra de Ken Follett, a prioridade está em descrever os dotes físicos de uma mulher. Mais especificamente, o autor se preocupa em descrever todas as mulheres a partir do tamanho de seus seios.

A primeira descrição de temos de Aliena, que se torna uma das protagonistas, é que ela tem seios enormes. Sempre que Aliena entra em cena, o autor descreve os seios grandes da personagem.

Quando qualquer outro personagem pensa em Aliena, tal personagem descreve os seios de tamanho avantajado que ela tem.

a personagem aliena
Imagem: A personagem Aliena, vivida pela atriz Hayley Atwell

E não é apenas com Aliena que isso acontece.

Temos outra personagem, Ellen, que coleciona uma série de características invejáveis para uma mulher do século XII, mas o autor sempre descreve a beleza selvagem da personagem antes de sua inteligência ou habilidade.

Essa narrativa machista chega ao seu ápice no último capítulo.

Nele, o personagem Jack agora é esposo de Aliena e depois de mais de vinte anos casados, ele a descreve como tendo “os seios ainda firmes, embora tenha amamentado duas crianças”.

Ellen pilares da terra
Imagem: A personagem Ellen vivida pela atriz Natalie Wörner

O que nos mostra que para o autor, pouco importava que os personagens tivessem passado por tudo que passaram durante a história.

O importante era que Jack tinha ao lado dele uma mulher de 40 anos que ainda tinha seios firmes.

2. Uso de clichês e estereótipos

Quando penso no uso de clichês e estereótipos na literatura, lembro sempre de uma entrevista com o autor das Crônicas de Gelo e Fogo, George R.R. Martin, onde ele foi questionado sobre suas personagens femininas.

Ao ser perguntado sobre como ele conseguia criar personagens femininas tão boas, ele respondeu que elas são pessoas e que criar personagens femininas é tão complexo quanto criar personagens masculinos.

Mas parece que muitos autores se esquecessem disso e não conseguem passar de representações viciadas e irreais. Em Pilares da Terra, o autor cai diversas vezes em estereótipos e clichês para traçar suas personagens.

Imagem: A personagem Agnes vivida pela atriz Kate Dickie

Nós temos a mulher que é mãe e se sacrifica pela família. Temos a personagem que é bobinha e orgulhosa, mas que sofre uma violência sexual para aprender que deve ser forte.

Temos a personagem que é uma selvagem, mas é linda e sedutora. Isso não significa que arquétipos devem deixar de ser usados, pelo contrário.

Arquétipos são essenciais para a contação de histórias. Porém, eles precisam ser bem executados para não se tornarem clichês e estereótipos.

3. Arco narrativo menos importante

Assim como uma narrativa machista se caracteriza pela redução da personagem feminina a um clichê, também se caracteriza pelo crescimento do pessoal masculino em detrimento do feminino.

O exemplo mais claro em Pilares da Terra é quando a personagem Regan, mãe de William, morre e toda sua morte serve para nos lembrar que o protagonista tem medo do inferno.

Não há nada que aconteça nessa cena que sirva para crescimento da personagem, para o andamento da história, nada… tudo nessa cena serve para (apenas) nos lembrar de algo que já sabíamos.

Imagem: Os personagens William e sua mãe, Regan

Esse é um exemplo de como diminuir a narrativa feminina em prol da masculina.

Outro exemplo de Pilares da Terra é quando Aliena sofre uma tentativa de estupro (depois de já ter sofrido um estupro) apenas para que a trama avance e dê motivos para Jack tomar uma ação.

Não foi para que Aliena avançasse em sua trama, embora a violência sexual como recurso narrativo seja muito errado.

Essa cena serviu apenas para que o marido dela fosse assassinado e para que Jack soubesse que podia pedi-la em casamento agora.

De maneira geral, não serviu à personagem, serviu à trama.

4. Violência injustificada contra a mulher

Essa é uma característica muito presente em Pilares da Terra e que está em quase todas as grandes obras que lemos. Na trama de Ken Follett, a violência contra a mulher acontece a todas elas e de todos os jeitos.

Acontece quando William estupra Aliena, acontece quando ela sofre uma segunda tentativa de estupro, acontece quando somos obrigados a ler uma cena de estupro coletiva em um bordel e acontece quando a jovem esposa de William descreve a violência diária que sofre.

Imagem: o grande vilão de Pilares da Terra, William

E todas as violências sofridas pelas mulheres na trama são injustificadas. Mulheres apanham e são estupradas no livro de Ken Follett para crescerem, para mostrar que o vilão é mau e para dar ritmo à trama.

A violência contra a mulher no livro é usada como recurso narrativo e isso não é certo.

O século XX e o século XXI estão sendo marcados pelas lutas de minorias sociais contra violências físicas, psicológicas, intelectuais e estruturais.

Nesse sentido, autores precisam pensar duas vezes antes de incluir uma cena de violência contra alguma minoria (mulheres, LGBTs, negros, indígenas, etc.) sem que isso vá ter algum valor real para a trama.

5. Uma característica extra: a falta de mulheres

Estou aqui reclamando das personagens femininas de Pilares da Terra há parágrafos, mas tenho que dar parabéns para o Ken Follett em uma coisa: pelo menos ele trouxe personagens femininas de alguma expressão no livro.

Algo que me entristece (e me deixa brava, muitas vezes) é como autores homens conseguem escrever histórias inteiras (às vezes, mirabolantes) sem apresentar uma personagem feminina com nome e motivação.

Um dos exemplos recentes que eu tenho é Tempo em Marte, do Philip K. Dick.

O livro tem uma narrativa que é extremamente machista (e muito problemática em outros aspectos) e que conseguiu nos apresentar apenas duas personagens femininas com nomes. O problema é que as duas são clichês profundos.

Por que é importante atender as expectativas do leitor com o destino dos personagens
Imagem: elenco da série Pilares da Terra

A primeira é a mãe que se sacrifica e só se preocupa com o lar, e a segunda é a sedutora, a amante de um homem rico e que vira amante de um dos funcionários desse homem rico.

Além disso, também existem livros inteiros que não têm nenhuma personagem feminina. Outro exemplo recente que eu tenho é Um Cântico para Leibowitz, do Walter M. Miller Jr.

Existem apenas três personagens femininas no livro inteiro e todas elas aparecem no espaço de um capítulo na história, todas envoltas nos estereótipos-clichês de mãe, donzela e velha.

A partir de toda essa exemplificação, como você pode evitar escrever uma narrativa machista? Vamos às dicas:

4 dicas de como evitar escrever uma narrativa machista

Agora que você entendeu quais são as principais características de uma narrativa machista, e já viu exemplos, vamos falar sobre maneiras de evitar reproduzir esses pensamentos.

1. Acrescente mulheres na sua trama em lugares diversos

Primeiro de tudo, você precisa ter em mente que metade da população mundial é mulher.

Olhe ao seu redor e conte quantas mulheres você vê. Com certeza, o seu mundo não é formado só por homens, então a primeira dica é: diversidade.

Você precisa ter personagens femininas. Especialmente se você quer escrever uma história crível e que seja apreciada por uma fatia mais larga da população.

Claro que existem alguns cenários em que será mais difícil ver mulheres, como no Vaticano, dentro da instituição católica, por exemplo.

Mas em todos os outros lugares, você vai precisar incluir mulheres porque elas existem e elas estão ao seu redor.

Imagem: Rainha Matilde (Alisson Pill), uma mulher em posição de poder em Pilares da Terra – Matilde foi a primeira rainha da Inglaterra que, mesmo sendo quase um fantoche de seus primos, teve importância história e trouxe discussões importantes sobre sucessão e o papel feminino.

E se você está escrevendo ficção especulativa, essa regra não existe. Você pode muito bem inventar uma sociedade em que mulheres podem estar dentro da igreja.

Hoje, existem mulheres em posições de poder em muitos âmbitos da sociedade. Elas estão no exército, nos altos cargos de empresas, no governo, na ciência, na educação superior e, também, nos lares.

A dica aqui é: não escreva suas personagens femininas apenas no ambiente familiar, dando aula em escolas ou como enfermeiras.

Mulheres estão em outros lugares também e cumprindo muitos papeis, não apenas o de cuidadora e interesse romântico.

2. Vá além da descrição física

Esse cuidado começa quando você cria suas personagens femininas. Para além da aparência delas, como elas são? E a dica aqui também é olhar ao seu redor.

  • Além da aparência física da sua namorada ou esposa, o que mais ela tem que é admirável?
  • Se alguém pedisse para você descrever sua mãe quando ela entra em uma sala ou quando ela dá uma opinião, você apenas descrevia o físico dela, ou também diria que ela tem um porte respeitável e uma voz assertiva?

Parecem pequenos detalhes, mas a percepção do leitor depende das palavras que você usa para descrever uma cena ou um personagem.

E apenas descrever uma personagem feminina pela aparência deixa no leitor a impressão de que aquela personagem não é nada além de sua descrição física.

Isso diminui a personagem diante do leitor, tira sua importância na trama e ajuda a fomentar o machismo na sociedade.

3. Não use violência contra a mulher nem como recurso

Normalmente, a dica aqui seria para você evitar usar violência contra a mulher que não tenha uma justifica. Porém, eu vou além. Não use violência contra a mulher e ponto.

Sabe por quê? A violência contra a mulher, a agressão e o estupro principalmente, são violências que o movimento feminino está tentando erradicar há muitos anos.

E trazer esse tipo de violência na sua história, mesmo que você acredite que ela é justificável para a trama, acaba sendo um legitimador.

Por exemplo, Aliena, na história do Ken Follett, não precisava ter sofrido um estupro e nem uma segunda tentativa de estupro. Existem outras situações, outros tipos de violência e ameaças pelas quais ela podia ter passado para chegar no mesmo resultado.

cena de como eu era antes de você
Imagem: personagens do filme/livro “Como eu era antes de você”, uma história que tem o estupro como recurso narrativo

Por isso, sempre que você achar que sua história precisa ter uma cena de estupro por causa disso ou daquilo, repense.

Você poderia ter o mesmo resultado sem essa cena? Sua personagem poderia ter se tornado uma pessoa mais esperta se apenas tivesse ficado presa em uma cela sem comida, por exemplo?

Se sim, o estupro é desnecessário.

Outra situação é um clássico de quem escreve romance de época, histórico ou inspirado na História: “mas era assim que acontecia”. Algo que o próprio Ken Follett trouxe.

O autor argumentou que as cenas de violência contra a mulher existem no livro porque na Idade Média elas eram comuns. E realmente eram, porém, você é um autor do século XXI.

E como autor do século XXI, sabe que isso não é correto e pode, muito bem, contornar o uso de violência na sua história.

4. Aplique o Teste de Bechdel e o Teste de Mako Mori

Se você não conhece nenhum dos testes que eu citei no subtítulo, pare de ler este artigo e vá pesquisar. Leia sobre o Teste de Bechdel aqui, e sobre o teste de Mako Mori aqui.

Basicamente, o que estes dois testes fazem é identificar (superficialmente) se uma história tem uma narrativa machista.

Por exemplo, no Teste de Bechdel, você faz três perguntas:

  • Existem duas personagens femininas?
  • Elas têm nomes próprios?
  • Elas conversam entre elas sobre algo que não seja um homem?

Já no Teste de Mako Mori, as perguntas são:

  • Existe pelo menos uma personagem feminina?
  • Ela tem um arco narrativo próprio?
  • O arco dela serve apenas para dar suporte ao arco de algum personagem masculino?

A ideia de ambos os testes, como eu falei, é identificar se uma história é inclusiva, se a história respeita a existência de personagens femininas e se representa o mundo da maneira como é (diverso e cheio de mulheres diferentes).

Eu disse que os testes são superficiais porque existem algumas histórias que têm boas representações femininas, mas que não passam no teste.

Por exemplo, a série Harry Potter não passa o Teste de Bechdel, mas é cheia de personagens femininas reais e que inspiram.

Passar sua história por um destes testes pode acabar exigindo que você transforme toda a sua narrativa.

Hermione, Harry e Rony
Imagem: a série Harry Potter, um bom exemplo de história com boa representação feminina que não passa nos testes

Por exemplo, Um Cântico para Leibowitz não passa no teste de Bechdel e nem no de Mako Mori, mas é um livro que tem uma abadia e monges como cenário.

Nesse sentido, conseguimos entender por que ele não passa, e transformar a narrativa para passar no teste poderia estragar a trama.

O problema é você ter um livro que se passa em uma sociedade aberta, seja contemporâneo ou especulativo, e ele não passar no teste.

Se esse for o caso, você precisa rever seu planejamento para ser mais inclusivo e representativo.

Em conclusão…

Esse é um tópico bastante complicado e que traz muita discussão. Com certeza, o assunto não vai se encerrar neste artigo, então busque mais informação e leia mais sobre o assunto.

Já passou da época em que podíamos escrever e publicar o que quiséssemos sem nos importar se o que escrevemos magoaria alguém.

E, sinceramente, não custa nada ser um pouco mais humano e ir além do mundo conhecido e das crenças enraizadas.

Por isso, reveja sua história e aplique os testes que citei aqui. E se você ainda tiver dúvidas, peça para alguma mulher ler e leve a sério o diagnóstico que ela der para você.

Com certeza, ela vai saber identificar se é uma narrativa machista ou não.

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