O dia em que eu descobri que A Câmara Secreta é uma trama política

O dia em que eu descobri a trama política em Harry Potter e a Câmara Secreta

Eu comecei o ano de 2018 fazendo uma releitura da série Harry Potter. Por mais incrível que pareça para alguém que se diz fã, eu apenas li cada um dos livros uma vez.

Então, eu achei que estava na hora de reler a série prestando atenção em tudo o que acontecia e tentando enxergar além do que a visão dos filmes mostrava.

Uma visão bem deficitária, na verdade, que deixou de fora uma excelente trama política. Minha intenção era reler os sete livros, mas eu reli apenas até o terceiro.

E enquanto eu lia o segundo, Harry Potter e a Câmara Secreta, eu notei uma trama que não parecia estar ali antes e que passou despercebida no cinema: uma trama política envolvendo Arthur Weasley e Lucius Malfoy.

Em meio a toda ação envolvendo basiliscos, petrificações e o nosso trio de ouro tentando parar as ações de Voldemort mais uma vez, estava uma rusga política que rendeu toda a trama do livro.

Se não fosse pela oposição de Arthur e Lucius, a história não teria acontecido. Duvida? Então, continua acompanhando.

A rusga política entre Arthur Weasley e Lucius Malfoy

Arthur Weasley é um funcionário do Ministério da Magia e o trabalho dele é investigar o uso de magia em artefatos dos trouxas.

Durante os acontecimentos iniciais de A Câmara Secreta, Arthur está envolvido em uma série de batidas, ou seja, revistas surpresa na casa de pessoas que podem ter em sua posse artefatos trouxas enfeitiçados ou artefatos suspeitos.

Arthur também é autor de uma lei de proteção aos trouxas, que está tramitando no Ministério da Magia, que promete tornar mais severa a punição para quem fizer algo contra trouxas.

Uma lei que Lucius Malfoy não gosta nem um pouco. Se de um lado temos um proletário que ama trouxas, do outro temos um burguês conservador que flerta com o fascismo.

Lucius vem de uma família tradicional, é rico, influente e já foi (é) um comensal da morte. Isso quer dizer que ele possui objetos que não deveria possuir e que uma lei de proteção aos trouxas mais severa é uma pedra no sapato.

Então, Lucius resolve tomar uma providência, como mostra a citação da página 40 do livro:

“- Não vou comprar nada hoje, Sr. Borgins, vou vender.

– Vender?

– O senhor ouviu falar, é claro, que o Ministério está fazendo mais batidas. Tenho em casa uns, ah, objetos que poderiam me causar embaraços, se o Ministério aparecesse…

– O Ministério não ousaria incomodá-lo, não é, meu senhor?

– Até agora, não me visitaram. O nome Malfoy ainda impõe algum respeito, mas o Ministério está ficando cada vez mais intrometido. Há boatos de uma nova lei de proteção aos trouxas; com certeza aquele bobalhão pulguento, apreciador de trouxas, Artur Weasley, está por trás disso…”

Em resumo, Lucius precisava se livrar das posses criminosas e manchar a reputação do Arthur. E como ele faz isso? Fazendo a Gina cometer crimes.

Lucius planta provas

Quando as duas famílias se encontram na Floreios e Borrões, Lucius devolve o caldeirão da menina com um objeto a mais dentro, o diário de Tom Riddle.

Uma vez na escola, o diário possui os pensamentos de Gina, forçando a menina a liberar o basilisco e petrificar seus colegas.

E o plano genial de Lucius passaria despercebido por mim, e pela maioria dos leitores, se não fosse essa citação do Dumbledore na página 219 de A Câmara Secreta:

“- Um plano engenhoso. Porque se o Harry aqui e seu amigo Rony não tivessem descoberto este livro, ora, Gina Weasley teria levado toda a culpa. Ninguém teria sido capaz de provar que ela não agira por livre e espontânea vontade…

O senhor Malfoy ficou calado. Seu rosto se repente se transformara em uma máscara.

– E imagine o que teria acontecido então… Os Weasley são uma de nossas família puro-sangue mais importantes. Imagine o efeito que isso teria em Arthur Weasley e na sua lei de proteção aos trouxas, se descobríssemos que sua própria filha andava atacando e matando alunos nascidos trouxas… Foi uma sorte o diário ter sido descoberto e as memórias de Riddle apagadas. Caso contrário, quem sabe quais seriam as consequências…”

No final das contas, percebemos que Lucius tentou incriminar a filha do Arthur Weasley porque se as pessoas, e o Ministério da Magia, descobrissem que era ela quem estava matando nascidos-trouxa na escola, a reputação do Arthur iria por água abaixo, fazendo com que o projeto de lei fosse engavetado.

E eu fiquei impressionada com essa trama política. Sabe por que?

Assim que eu entendi exatamente o que estava acontecendo, eu me peguei muito impressionada

Parecia uma ousadia extrema adicionar uma trama política em um livro infanto-juvenil, ainda mais porque se não fosse essa rusga não haveria história.

O diário de Tom Riddle nunca voltaria para Hogwarts e Harry teria um ano tranquilo. Mas por que eu fiquei impressionada se Harry Potter é uma série com conteúdo político?

Por exemplo, no sétimo livro, nós temos simplesmente uma série de acontecimentos emblemáticos:

  • O Ministério da Magia sofre um golpe de estado;
  • Um líder hegemônico toma o poder;
  • O movimento estudantil se levanta contra a ditadura;
  • Minorias são perseguidas, registradas e torturadas;
  • O símbolo da liberdade é perseguido pela imprensa.

Toda a trama da série de livros, desde a existência de Voldemort até a intervenção do Ministério da Magia em Hogwarts no quinto livro, A Ordem da Fênix, está calcada em interesses políticos.

Mas eu fiquei impressionada com a presença de política porque não estamos acostumados a encarar o entretenimento como expressão política. O mais provável é encarar o entretenimento como algo inútil que só serve para passar o tempo.

O entretenimento ensina

Porém, o entretenimento ensina. E não apenas política, mas valores, moral e empatia.

  • Apesar de ter sido escrito pelo ponto de vista de um pedófilo, Lolita denuncia a pedofilia ao mostrar todos os sinais de trauma que a Dolores tem e toda a manipulação emocional que o Humbert cometia.
  • Contado por vários pontos de vista, Extraordinário alerta contra o bullying ao sensibilizar o leitor sobre uma deficiência rara e sobre como as pessoas reagem a essa deficiência.
  • O Conto da Aia é uma distopia que nos ensina uma grande realidade: diante de qualquer adversidade política, pode ter certeza de que os direitos das mulheres começarão a desaparecer. E um detalhe importante é que nada no livro é inventado, todas as opressões contra as mulheres de Gilead já aconteceram na história.
  • Jogos Vorazes mostra que as pessoas são cinza e que, mesmo que o líder de uma rebelião esteja agindo pelo bem, ele ainda pode ter uma atitude horrível. Um exemplo é a presidente Coin ter a ideia de televisionar uma última edição dos jogos com crianças da Capital como vingança.
  • Star Wars nos ensina diversas lições, mas uma das mais importantes, e que nos entregou o maior vilão do século passado, é que mesmo que uma pessoa tenha boas intenções, ela pode ser manipulada pelo sistema e corrompida em favor dos interesses de um grupo.
  • E, por fim, Game of Thrones nos mostra o poder do sistema e como é difícil propor visões novas.

Com todos esses exemplos, eu quero dizer que o entretenimento nunca é só entretenimento. Nesse sentido, entretenimento é arte, arte é política e arte e entretenimento ensinam.

Entretenimento é arte e arte é política

O exemplo mais próximo que eu consigo lembrar para mostrar a importância da arte como política é a arte contemporânea.

Esta é a arte mais difícil de apreciar, e que muitas pessoas não consideram arte, porque ela não faz o que é esperado.

A arte contemporânea nasceu para provocar o olhar humano, para se inspirar em nós e para ser um reflexo do que pensamos e de como vemos o mundo.

Olhar para uma obra contemporânea não é olhar para o que o artista quis dizer, mas para o que estamos sentindo e como sentimos.

O mesmo vale para o entretenimento. Afinal, estamos olhando para o cinema como algo apenas para passar o tempo? Estamos lendo livros apenas por curiosidade?

E o mais importante, estamos olhando para o entretenimento buscando entender o que ele quer dizer?

Em suma, eu estava olhando para Harry Potter e a Câmara Secreta apenas como um livro infanto-juvenil e me surpreendi com uma trama política. E por fim, tenho uma pergunta: o que vocês veem nessa história?

Um bruxinho lutando contra um vilão e matando uma cobra gigante? Ou uma história movida pelos interesses de adultos que comandam a sociedade, sejam eles um professor bondoso ou um homem que quer dominar o mundo?

 



Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *