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É necessário para um autor se conter em um só gênero literário?

É necessário para um autor se conter em um só gênero literário?

Uma situação com a qual eu me deparei esses dias foi a definição do meu gênero literário enquanto escritora.

Eu sempre achei que eu era uma escritora de ficção especulativa, especialmente de fantasia. Porém, nos últimos tempos, eu venho criando muita vontade de contar histórias de outros gêneros.

Engatilhados, prontos para que eu dê atenção a eles, por exemplo, eu tenho um romance e um policial.

Mas a dúvida que me fica sempre que eu estou pensando nessas histórias é se não seria melhor que eu focasse em um gênero literário só. E nós vamos falar do motivo logo mais.

Escritores pertencem a um só gênero literário?

Algo que perguntei aos meus seguidores no Instagram e recebi respostas ótimas é como os escritores favoritos deles se relacionam com os gêneros literários.

Eles escrevem em um só? Eles se aventuram por outros gêneros? E se os autores lançaram algo “fora do gênero típico dele” se os respondentes leriam.

E a coisa foi muito positiva, o que me deixou mais tranquila.

Um dos exemplos trazidos foi o Umberto Eco, um autor que tem trabalhos em diversos gêneros e formatos literários, desde a filosofia e a literatura até a ficção.

Também existem autores que transitam dentro da mesma grande categoria, como o Stephen King e o Brandon Sanderson, por exemplo.

King é um autor de suspense e mistério, mas que tem os dois pés dentro da ficção especulativa, especialmente o terror. E o Sanderson se divide entre a ficção científica e fantasia.

O que eu queria com essa pesquisa rápida entre os meus seguidores era entender se eles acompanhariam o autor preferido deles em outro gênero literário e por quê.

Quem respondeu que sim, disse que é porque gosta do que o autor escreve para além dos elementos de um gênero específico.

Onde os temas entram na história

E aqui a gente começa a falar sobre os temas das histórias. O tema é a verdade que o autor quer gritar para o mundo, é a nuance que ele quer que os leitores percebam e entendam como lição, é o que ele quer ensinar para o protagonista com a jornada.

Por exemplo, o tema de A Bela e a Fera é enxergar além das aparências e o da série Mistborn pode ser (pelo menos, foi o que eu entendi) a de que confiança e fé são a mesma coisa.

E nesse sentido, talvez um autor que queira transitar entre gêneros seja mais um escritor de temas do que um escritor de elementos formadores de gêneros literários.

Eu nunca li nenhum dos livros da Taylor Jenkins Reed, mas pelo que eu entendi, o maior sucesso dela é tirar o véu da fama e do sucesso. Ela também tem obras sobre redescobrir o amor que vieram antes desse novo tema unificado.

Nesse sentido, se a Taylor Jenkins Reed quisesse se aventurar em uma fantasia, por exemplo, tenho certeza de que os temas ainda estariam dentro dessa mesma linha.

Por isso, talvez os temas sejam mais importantes do que o gênero para os autores. Porém, isso traz um problema que escrever em um gênero só não traz: o marketing literário.

Como formar um público escrevendo em vários gêneros literários?

A informação mais básica que alguém precisa ter antes de começar uma campanha de marketing é para quem aquele produto se destina. Ou seja, quem é o público-alvo.

No marketing literário, uma das perguntas que ajuda a encontrar o público-alvo é “em qual gênero você escreve?”. Então, se você não escreve em um gênero específico, como começar a descobrir quem é seu público-alvo?

Eu não sei responder essa pergunta e esse é um dos motivos da minha ansiedade em querer escrever algo fora do meu gênero literário inicial.

Escrever em apenas um gênero facilita o marketing literário porque o público já está formado, ele já está familiarizado com os elementos apresentados e talvez até com os temas.

Mas será que o público que acompanha um autor que só publica ficção especulativa faria a migração para um livro policial com facilidade apenas pensando nos temas? E como trabalhar o lançamento de cada livro, para quem anunciar? E a gestão de marca do autor, quem é o público nesse caso?

Não sei a resposta para essas perguntas.

Talvez o mais correto seria trabalhar os temas unificados como o principal atrativo do autor em vez de focar no gênero. Mas eu também não tenho essa resposta.

E como o gênero literário me afeta enquanto escritora?

A minha questão é uma que sempre me persegue, em qualquer ambiente: eu gosto de fazer tudo.

Eu gosto de trabalhar em todas as etapas de um projeto, eu gosto de falar de todos os assuntos e eu gostaria de poder escrever um livro em cada gênero durante a minha vida.

E isso resulta em uma escritora sem gênero literário.

E uma escritora sem gênero literário tem qual fio condutor em suas obras, algo que a identifique mesmo que escreva em ambientes diferentes?

O Stephen King tem o sobrenatural e a Taylor Jenkins Reed tem a relação com a fama. E eu tenho o quê?

Eu não sei se o melhor seria escrever o que eu quiser, me preocupando com uma linha condutora entre as histórias independente do gênero literário. Ou se seria melhor criar pseudônimos para cada gênero.

Confesso que já me passou pela cabeça usar meu nome para escrever apenas ficção especulativa e criar pseudônimos para lançar todas as outra histórias que eu quero, um para o romance e o outro para o policial.

Porém, isso cria mais problemas do que soluções.

Ter pseudônimos requer mais investimento em marketing porque em vez de pensar na gestão de marca da Mariana Bortoletti, eu vou precisar pensar (e gerenciar) a Fulana, a Beltrana e a Cicrana também.

E então, o que me resta?

Talvez arriscar e assumir que eu não sou uma escritora de gênero literário, mas uma escritora de tema.

E talvez não seja tão difícil assim fazer isso acontecer. Isso porque eu percebi que as minhas histórias sempre acontecem em um ambiente doméstico, mesmo que estejam localizadas em um mundo amplo.

Por exemplo, todos os contos que eu escrevi para o Onirismos, o meu primeiro livro, são contos de ficção científica. Eles acontecem em mundos distópicos e, sim, eu criei todos os mundos e seus problemas.

Porém, o foco dos contos não é o mundo, mas em famílias. Todos os tipos.

Em O Centauro no Circo, o foco são duas irmãs sobrevivendo em um mundo que não as quer, é a relação de confiança entre elas e a certeza de que uma fará o que for preciso para manter a outra a salvo.

Em Tempestades de Areia, o foco é a preocupação de uma mãe em manter seus filhos a salvo em meio a um mundo caótico, é entender que fazer o melhor para eles pode ir contra o que ela acredita.

E em Amnésia e Eloquência, o foco está em uma personagem libertar seus amigos e colegas das mãos de uma ditadora.

E para além do Onirismos, as minhas histórias sempre focam nas relações entre as pessoas ou em temas domésticos.

Por exemplo, a fantasia que eu estava desenvolvendo o worldbuilding foca em uma relação conturbada entre mãe e filha e na ação do destino.

A novela policial que eu quero lançar ainda este ano foca em uma amizade perdida e no que isso acarreta para uma das personagens.

O romance que eu escrevi no NaNoWriMo 2o19 foca no esforço humano de se manter uma realidade mesmo quando ela se esvai.

Eu sei que soa pretensioso, mas talvez as histórias que eu quero contar não tenham sido feitas para serem colocadas em caixinhas.

Ou eu não queira fazer o esforço de encaixá-las dentro do mesmo gênero. Porque eu poderia fazer isso, mas eu não quero, não parece certo.

Em resumo…

E tudo isso nos traz à última seção deste artigo. Eu tenho respostas para as perguntas que eu fiz aqui? Não tenho.

O que eu tenho é, talvez, uma ideia de qual caminho seguir, uma experimentação que eu vou ter que fazer porque sou avoada demais para ficar em uma coisa só.

E você, o que acha disso? Você é um escritor de um só gênero literário ou se aventura por vários? Compartilha sua experiência aqui nos comentários!



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