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Por que é importante atender as expectativas do leitor com o destino dos personagens

Por que é importante atender às expectativas do leitor no destino dos personagens

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Quando estudei a literatura policial no meu TCC, descobri vários autores falando sobre uma característica do leitor: a vontade de descobrir o que vai acontecer antes do autor contar.

A ideia é que nós queremos provar nossa inteligência, e alimentar a curiosidade, descobrindo a solução dos acontecimentos pegando pistas no meio do caminho. Eis um dos motivos do sucesso que as narrativas policiais têm.

Porém, não é só na narrativa policial que isso acontece.

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Nós, enquanto leitores, queremos descobrir tudo através de pistas que a própria história nos dá, mas também através de pistas que estão fora do universo daquele livro.

Por exemplo, se estamos assistindo um filme que é classificado como comédia romântica, não precisamos pegar as pistas dentro da narrativa para saber que os protagonistas terminarão a história como um casal.

O gêneros nos conta isso, outras histórias com a mesma temática nos contam isso e as outras histórias do autor podem nos contar isso também.

E essa veia do ser humano, essa curiosidade e a vontade pela descoberta, e por acertar o resultado, pode ser o pior pesadelo dos escritores.

Isso porque é ela quem cria as expectativas do leitor e que nos faz prestar atenção duplamente na jornada e no destino dos personagens.

As expectativas do leitor para o personagem William, de Pilares da Terra

Fiz toda essa consideração porque queria comentar uma experiência que eu tive com Pilares da Terra, do Ken Follett.

Em janeiro de 2021, meu clube de leitura escolheu este livro clássico para o mês. Pilares da Terra é um livro clássico da ficção histórica, estava na minha lista de leitura há algum tempo e tem muitos fãs.

Porém, eu (e diversos outros colegas do clube) tive muitas decepções com a história. Entre tantas, a que vou comentar aqui hoje é a construção do personagem William e do destino dele.

Basicamente, o final do personagem não foi como estávamos esperando. Ou seja, não atendeu às expectativas do leitor.

Como é a construção de William enquanto personagem?

Já no início da história, conhecemos William como um jovem rico, bonito e que vem de uma família importante e ambiciosa.

Desde sua primeira aparição, o narrador deixa claro que William é um sádico, que ele gosta de violência, gosta de torturar as pessoas e tem prazer ao ver mulheres sofrerem.

Ele quer casar com Aliena, mas a partir do momento em que a moça o rejeita, William começa a alimentar o desejo de estuprá-la.

Não apenas porque ele queria transar com Aliena, mas porque ele deseja subjugá-la, humilhá-la e fazê-la sentir dor. Porque é assim que ele tem prazer.

William tem a necessidade de se sentir poderoso e faz isso usando da violência. E nós vemos esse comportamento crescendo e crescendo durante a história.

Começa com a humilhação de empregados, passa pela efetivação do estupro de Aliena e só cresce.

Quando se torna Conde de Shiring, William começa a ter mais dinheiro e poder, expandindo suas ações violentas.

Nós acompanhamos o personagem enquanto ele espanca e estupra uma prostituta, enquanto ele coloca fogo em todo um condado, destruindo o negócio de lã de Aliena, enquanto ele estupra jovens camponesas e quando se casa com uma moça apenas para estuprá-la e torturá-la todos os dias.

Na metade do livro, William é um homem tão poderoso que só faz o que quer. E aqui eu comecei a pensar em como o autor iria resolver essa ascensão do personagem.

Se ia deixá-lo impune  e como, caso ele escolhesse a justiça, faria para William pagar por tudo o que estava fazendo.

Como acontece a queda do personagem?

Depois de muita violência (descritiva demais e até desnecessária), William tem sua primeira queda.

Ele perde o título de Conde de Shiring e parece que estamos prestes a vivenciar as coisas horríveis que acontecerão com ele.

Porém, William se torna Xerife, tão ou mais poderoso do que conde. O ciclo de violência recomeça.

Quase no final da história, o personagem ainda estava na crista da onda de sua jornada, então eu recomecei a pensar nas consequências dos atos dele, descartando a possibilidade de impunidade porque ninguém estava saindo impune na história.

Todos os personagens, tanto bons quanto maus, estavam recebendo as consequências de seus atos.

Então, esperei que o final de William fosse me entregar o sofrimento necessário do personagem para compensar toda a violência que ele tinha provocado, mas… spoiler, não aconteceu.

O castigo tímido de William

Depois de todo mal que causou para outros personagens, William tem um final sem graça.

O personagem é enforcado em praça pública junto com criminosos comuns de uma maneira tímida e recatada.

O narrador não nos dá a visão dele, não temos uma ideia do que William está pensando e nem se isso está sendo tão ruim para ele quanto queríamos que fosse.

Quem narra a cena é Aliena, talvez quem mais sofreu nas mãos de William. Porém, toda a cena é comum e sem emoção.

A personagem apenas pensa em tudo que sofreu e como isso a ajudou a crescer (vamos falar sobre a narrativa machista deste livro em algum momento).

Nos últimos momentos de William, o olhar dele encontra o de Aliena e ela conta que viu desejo ali ainda. Desejo. O personagem não mudou em nada.

O final de William não entrega nem um pouco do que as expectativas do leitor esperavam.

Ele merecia muito mais. Aliás, o final do personagem traz a tona uma característica que poderia ser utilizada para deixar essa cena mais satisfatória.

Como poderia ser melhor

O personagem morria de medo do diabo, morria de medo da simples menção de ele ir para o inferno.

E o mais perto que a narrativa chegou de fazer William sofrer com isso foi quando a mãe dele morreu sem receber a extrema unção.

Na tradição católica, isso a levaria diretamente ao inferno.

Então, talvez um final mais desesperador para William seria ele próprio não receber a extrema unção, ele próprio sentir que seria arrastado para o inferno, ele próprio ter essa certeza.

Mas não, o personagem é apenas enforcado e sente desejo no último segundo de vida. O autor nos mostra que o personagem não mudou, que ele não sentiu o suficiente do que fez para se arrepender.

William morreu como viveu, glorificando a violência sem ter consequência verdadeira nenhuma por isso. Não chega nem perto do que os leitores estavam esperando.

Por que atender às expectativas do leitor é importante?

É inevitável que um leitor vai tentar adivinhar o que vai acontecer no final da sua história e que ele gostar do livro ou não vai depender disso.

Por isso, muitos filmes e séries de TV prezam pelo plot twist acima de tudo, prezam pelo choque, porque eles querem surpreender o espectador.

Mas pensar apenas na surpresa para o leitor, ou não pensar sobre as expectativas do leitor em nenhum momento, pode prejudicar e muito a sua história.

Por exemplo, pensar só em chocar, só em surpreender, pode nos entregar um final azedo como em Game of Thrones, em que a jornada da personagem Daenerys não fez sentido nenhum.

A loucura de Dany não foi bem construída, assim como Bran assumindo o trono. E isso porque os autores pensaram no choque, e não no desenvolvimento de personagens.

Agora, pensar apenas no outro lado, não pensar no que os leitores podem especular, pode entregar finais que frustram.

Assim como vimos em Pilares da Terra. Ken Follett ignorou completamente o sentimento de justiça que muitos de nós têm enquanto lemos e criou um personagem que não tem o final que merece sem que isso fizesse sentido com o restante da trama.

Se no seu livro, todos os personagens estão sofrendo as consequências por seus atos, sejam elas recompensas ou castigos, porque seu vilão maior não vai receber esse final também?

Por isso, esteja sempre atento à construção de jornada do seu personagem junto com as expectativas do leitor.

Em conclusão…

Quando estiver criando um personagem, preste atenção no quão alto será a subida dele e se a queda está proporcional. Pode parecer apenas um cuidado superficial demais no planejamento da história, mas não é.

Lembre-de que quanto mais bem pensada for a história e os personagens, melhor você atenderá às expectativas do leitor.

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