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Analisando a estrutura rígida da literatura policial

Assim como qualquer outro gênero, a literatura policial tem uma estrutura marcante que a caracteriza.

A história fala sobre um crime, normalmente um assassinato. Nesse ínterim, um detetive investigará esse assassinato, seja ele um detetive particular ou pertencente ao corpo policial.

Esse detetive, então, disseca a questão, aponta suspeitos e, por fim, indica o culpado, expondo seus motivos.

Por ter uma estrutura fechada, uma prática bastante comum aos escritores de histórias policiais é escrever a trama ao contrário, partindo da solução para o crime.

Essa prática visa uma história melhor amarrada, sem erros de percurso e com um resultado perfeito. Seguir essa prática é seguir um caminho diferente de outros gêneros literários.

A literatura policial vai do mistério aos personagens. Enquanto isso, um romance comum vai das personagens à intriga.

Os principais autores do gênero.

As críticas à estrutura da literatura policial

Alguns críticos, pejorativamente, se referem à estrutura do romance policial como uma receita de bolo.

Ou seja, uma espécie de formulário com campos previamente preenchidos à espera de um escritor que recheie os detalhes. Não podemos negar a estrutura bastante fechada e limitada que o romance policial tem.

Especialmente porque, para ser considerada uma narrativa policial, é necessário que haja um crime, um detetive e uma solução racional.

Entretanto, as críticas não seriam tão pesadas se durante a trajetória do gênero, dois estudiosos não tivessem criados listas de regras que os autores deveriam obedecer.

Ronald Knox

As regras de Knox e Van Dine

Embora separados por um oceano, Ronald Knox e S.S. Van Dine chegaram em diversos pontos em comum em suas listas de regras. Em resumo, estas seriam as regras principais combinadas:

  • O criminoso deve ser mencionado na primeira parte da narrativa, mas não deve ser ninguém cujos pensamentos o leitor teve a oportunidade de acompanhar;
  • A história não deve conter nenhum agente sobrenatural;
  • Não deve haver mais de um quarto ou passagem secretas;
  • Usar veneno ainda desconhecido não é indicado. Nesse mesmo sentido, também não deve-se usar qualquer aparelho que exija uma longa explicação científica na narrativa;
  • Nenhum acaso deve ajudar o detetive, assim como ele não deve possuir uma intuição inexplicável;
  • O próprio detetive não pode cometer o crime ou contar pistas não apresentadas ao leitor;
  • O “amigo bobo” do detetive deve ser ligeiramente menos inteligente que o leitor médio e seus pensamentos não devem ser ocultados;
  • A história não deve conter irmãos gêmeos ou sósias, a menos que a narrativa tenha preparado o leitor para isso;
  • Não deve-se apresentar nenhuma intriga amorosa, ou seja, o detetive não deve se apaixonar durante a narrativa;
  • A história deve contar com apenas um único e verdadeiro detetive;
  • O criminoso não deve ser um empregado;
  • Deve haver apenas um culpado, independente do número de crimes
  • O escritor de romance policial não deve se ater à longas passagens descritivas, deve-se ser objetivo.

Considerações

As regras apresentadas podem parecer muitas restrições, mas se analisarmos algumas destas questões, conseguimos compreender seu propósito.

É fácil de entender a restrição a elementos sobrenaturais quando pensamos que, se uma ajuda sobrenatural aparecer, o livro começa a fazer parte de um gênero diferente.

Dessa maneira, ele seria pelo menos um híbrido entre dois gêneros e não uma história policial pura.

Justamente com a ideia de o detetive não poder contar com sua intuição traz uma forte característica da literatura policial: a ideia de que ela precisa ser realista, calcada na realidade.

S.S. Van Dine

Pode existir novidade com tantas regras?

Mesmo assim, é notável o lançamento de tantos livros de romance policial diferentes uns dos outros. Pierre Boileau disse em seu livro O Romance Policial que essas regras acabam com a criatividade dos escritores.

Ele inclusive diz que escrever um romance policial segura o autor, impõe uma estrutura que é impossível modificar sem sair do gênero.

Porém, contrariando Boileau, P.D. James, escritora inglesa de literatura policial, diz que este é apenas mais um desafio para o autor.

Ela aponta em seu livro Segredos do Romance Policial, que os escritores do gênero não acham essas regras inibidoras.

P.D. James diz também que essa afirmação é errônea porque, se fosse assim, sonetos nunca poderiam ser boas poesias. Isso porque sonetos também seguem uma estrutura formal.

Hoje em dia, os escritores de histórias policiais não levam essas regras tão a cabo, especialmente porque o gênero evoluiu e se transformou. Hoje são bastante comuns os híbridos de gêneros, como falamos acima.

A autora P.D. James

A única regra que realmente importa

Analisando essas regras, podemos notar que o ponto comum em todas elas é também a característica mais marcante da estrutura do gênero: o mistério.

É comum acharmos que essa característica é própria da literatura policial, até porque ela é fator essencial no funcionamento da trama, mas o mistério está presente na maioria dos gêneros literários.

P.D. James diz que não está presente como um mistério de quem matou quem, mas mistério sobre as relações pessoais.

Ela cita o romance Emma, de Jane Austen, que tem uma trama complexa e relações misteriosas envolvendo Frank Churchill e Jane Fairfax.

A protagonista toma ares de detetive para investigar o que aconteceu entre os dois e descobre que Jane e Frank estão secretamente noivos.

Porém, esse mistério não é o tema central da história e Emma não é formalmente uma detetive, então o livro não pode ser considerado literatura policial.

Para ser considerado romance policial, segundo P.D. James, a história precisa ter um mistério central que será resolvido racionalmente.

Ou seja, de forma lógica, sem a ajuda da sorte e da intuição, através de pistas apresentadas honestamente.

Este artigo é parte de um estudo sobre literatura policial e a representação de museus no gênero. Para conferir o conteúdo completo, acesse este link.

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