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Conheça a Amatory Fiction, o gênero literário que desapareceu por causa da moralidade

Amatory Fiction: como o machismo fez este gênero literário desaparecer

Amatory Fiction (sem tradução para o português) é um gênero literário que ficou popular nas ilhas britânicas entre o final do século XVII e início do século XVIII.

O foco central deste gênero estava no amor, no romance e no sexo.

Dominado pelas mulheres, tanto no papel de leitora quanto de escritora, a Amatory Fiction foi um movimento criado e divulgado por mulheres que buscavam questionar os papeis de gênero e seu lugar na sociedade.

O que faz a Amatory Fiction ser interessante, e o que fez com que ela fosse esquecida, é que as histórias são escritas por mulheres, e para mulheres, e exploram temas como sexualidade feminina, prazer feminino e os limites da autonomia feminina em sociedade.

Você vai conferir:

Como a Amatory Fiction rompeu com a norma?
Qual foi a reação à Amatory Fiction?
Que histórias contavam os romances desse gênero?
Como foi que a Amatory Fiction desapareceu?

Como a Amatory Fiction rompeu com a norma?

Até o momento de criação da Amatory Fiction, o estilo típico de narrativas femininas era o da mulher arruinada.

Nesse tipo de história, mulheres jovens conhecem homens e são seduzidas e enganadas por eles.

Elas terminam suas histórias arruinadas por terem tido relações sexuais fora do casamento e têm um fim trágico, como a morte.

O que esse tipo de narrativa sempre trouxe foi o reforço de que o papel feminino estava no casamento e na obediência aos homens, e que fugir dessa trajetória poderia dar um fim trágico a elas.

O que fez a Amatory Fiction surgir, então, foi a seguinte pergunta: e se a heroína das histórias gostasse de sexo e não tivesse um fim trágico (na maior parte das vezes)?

O movimento questionava a literatura cautelar, então suas principais características eram narrar histórias que colocavam a mulher em lugares antes inimagináveis, especialmente em aventuras fora de ambientes domésticos, explorando o prazer feminino.

Qual foi a reação da época à Amatory Fiction?

Como era de se esperar, em seu tempo, a Amatory Fiction foi considerada altamente imoral.

As histórias do gênero eram narrativas que permitiam que mulheres tivessem vidas sexuais e casos com homens que não eram seus maridos.

E numa época em que o prazer feminino precisava ser punido, isso era uma afronta.

Por conta desse olhar de moralidade, o papel de suas autoras foi diminuído diante da história da literatura e as histórias escritas por elas foram consideradas produtos de segunda linha, embora tivessem bastante sucesso entre as leitoras.

Uma movimentação comum na época foram autoras mulheres de outros gêneros, como Frances Burney, se declararem contra a Amatory Fiction.

Retrato da autora Frances Burney.

Afirmando que “não eram como as autoras desse gênero imoral”, elas conseguiam continuar escrevendo com a aprovação dos homens ao seu redor.

Também podemos dizer que a Amatory Fiction foi responsável por obras de autores como Daniel Defoe, Henry Fielding e Samuel Richardson.

Em seu livro Novel, romance and popular fiction of the first half of the eighteenth century, Dieter Schulz diz que o trabalho desses autores não era apenas uma alternativa aos romances produzidos no século XVII, mas uma resposta aos trabalhos de autoras de Amatory Fiction.

Schultz cita especificamente três mulheres expressivas do período: Eliza Haywood, Aphra Behn e Delarivier Manley.

As três foram autoras muito lidas na época e conhecidas como “the fair triumvirate of wit“, algo que pode ser traduzido para “o triunvirato justo da sagacidade“.

E não apenas sobre a moralidade falavam os críticos da Amatory Fiction na época, mas também sobre os finais felizes.

Para eles, a ideia do “felizes para sempre” era um capricho, algo de menor valor.

Tudo isso para invalidar o valor dessas histórias enquanto literatura. O que, no entanto, não impedia a popularidade da Amatory Fiction entre as leitoras inglesas.

Em determinado momento da História, o livro Love In Excess, de Eliza Haywood, figurou entre os mais populares junto à Robinson Crusoé e As Viagens de Gulliver.

Que histórias contavam os romances desse gênero?

Um romance bastante popular (e escandaloso) na época era History of the Nun or The Fair Vow Breaker, de Aphra Behn.

Ele contava a história de uma mulher chamada Isabella que, depois de algumas desventuras, se torna uma assassina.

Ela é enviada para um convento quando sua mãe morre e, enquanto está sendo treinada como freira, se apaixona por um homem chamado Henault.

Os dois se casam, cometem crimes e ambos se veem desgraçados socialmente.

Então, para amenizar a situação, Henault vai para o exército e Isabella recebe a notícia de que ele morreu. Ela se casa, então, com um homem rico chamado Villenoys.

Nesse meio tempo, Henault, que não estava morto, retorna, e Isabella, com medo de ser acusada como bígama, mata Henault e se livra do corpo.

No fim, Isabella, que quase consegue se provar inocente, acaba confessando e é executada.

Retrato da autora Aphra Behn.

Mais um dos romances mais bem sucedidos do período é Fantomina or Love in a Maze, de Eliza Haywood.

O romance conta a história de uma mulher que começa a ter um caso com um homem, Beauplasier, depois de uma noite no teatro.

Um dia, Beauplasier fica entediado e desaparece da vida da protagonista.

Ela, porém, não aceita aquilo e começa a utilizar disfarces para ir atrás de Beauplasier e seduzi-lo novamente.

Ela consegue todas as vezes e, em determinado momento, os dois ficam entediados do caso e se separam.

Entretanto, a protagonista fica grávida e, por insistência de sua mãe, conta a novidade para Beauplasier.

Ele, tentando consertar a situação, propõe casamento, mas a protagonista não aceita e tem seu filho em um convento francês.

Retrato da autora Eliza Haywood

Mas nem só de romances vivia a Amatory Fiction.

A terceira perna do triunvirato justo da sagacidade, Delarivier Manley, colecionava histórias satíricas e alegóricas sobre o parlamento e pessoas proeminentes na alta sociedade.

A mais famosa delas é In The New Atalantis, uma saga satírica onde duas deusas, Justiça e Virtude, descem à Terra para observar, horrorizadas, atos humanos como orgias, seduções e violências.

Com o romance, Manley zombou especialmente de Sarah Churchill, Duquesa de Marlborough e favorita da Rainha Anne na época.

Pela corte, existiam boatos de que Sarah e a rainha tinham um caso e, quando ouviu sobre a história de Manley, a duquesa pediu a prisão dela.

Já presa, a autora disse que o livro não passava de ficção e, com medo de que a luta contra o livro aumentasse os boatos, Sarah retirou suas queixas e Manley foi libertada.

Capa da edição original de In The New Atalantis, de Delarivier Manley

Como foi que a Amatory Fiction desapareceu?

Falamos aqui sobre a expressividade que a Amatory Fiction e suas autoras tiveram na época do movimento, mas se eram tão expressivas assim, como despareceram?

A resposta é a seguinte: machismo.

O que todas as histórias de Amatory Fiction tinham em comum eram mulheres vivendo suas vidas de forma muito mais ativa e decisiva do que a sociedade da época gostaria. E isso era considerado um problema a ser resolvido.

Também existia a imagem que autoras do gênero foram ganhando ao longo do tempo.

Era comum que elas fossem chamadas de “prostitutas da caneta” porque escreviam sobre assuntos que apenas prostitutas falavam e tratavam.

Isso foi diminuindo a Amatory Fiction, colocando-a em uma prateleira de subproduto. O que facilitou a ação que acelerou seu desaparecimento.

Com as histórias do gênero sendo consideradas menores, autores comprometidos com a moral e os bons costumes começaram a reescrever essas histórias, mudando o tom geral e a mensagem.

Ou seja, eles escreviam histórias parecidas com as já contadas em Amatory Fiction, mas usando conteúdos morais mais bem aceitos e colocando a mulher no seu lugar social, de esposa virtuosa e mãe.

Então, começaram a surgir histórias um pouco mais ousadas, mas dando a devida punição para personagens que ousassem buscar prazer.

Essa foi uma maneira de as pessoas continuarem consumindo uma literatura mais ousada, mas deixando de consumir a Amatory Fiction, que, aos poucos, desapareceu.

Para concluir…

Foi somente nos primórdios do movimento feminista que autoras como Virgínia Woolf redescobriram a Amatory Fiction e deram o crédito que essas mulheres mereciam.

Hoje, na Inglaterra e EUA, existem muito pesquisadores estudando os trabalhos de autoras como Haywood, Behn e Manley, assim como seu contexto e sua contribuição para a literatura mundial.

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Este artigo é uma adaptação do vídeo veiculado no canal Storied, disponível neste link.

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